“As limitações às vezes dão-te mais clareza”: Assaf Machnes e o desafio de filmar “Where To?”

(Fotos: Divulgação)

Dentro da perspectiva teórica do antropólogo francês Marc Augé, o táxi é considerado um não-lugar (ou um “lugar antropológico” de transitoriedade). Assaf Machnes sabe disso e na sua primeira longa-metragem transforma esse veículo num espaço de confronto e reconhecimento com Where To?, filme apresentado na secção Panorama da Berlinale.

Assaf Machnes

Nas noites de Berlim, Hassan, um motorista palestiniano de 55 anos, vive entre corridas de um lado para o outro e uma relação fraturada com a filha. Quando Amir, um jovem israelita, entra no seu carro, inicia-se uma ligação improvável que atravessa dois anos e várias feridas abertas. Entre desejos, exílio e memória, o filme transforma estes encontros noturnos numa reflexão íntima sobre a pertença e as marcas persistentes da História.

“Vivi aqui há cinco anos. Estava bastante sozinho e encontrei-me num táxi com um motorista palestiniano. Senti que nos compreendíamos sem dizer grande coisa, a um nível instintivo, mais do que com a maior parte das pessoas na cidade”, explicou Assaf Machnes ao C7nema, sobre a ideia para o filme. “Isso ficou comigo e, poucos dias depois, comecei a escrever um filme. Lentamente, ao longo do desenvolvimento, comecei a perceber o que é que ele realmente falava. Estava a perguntar ‘e se continuasse a encontrar o mesmo tipo do táxi?’. Lentamente essa tornou-se a história do Hassan.”

A comunicação entre as personagens é muitas vezes feita num inglês rudimentar, algo que o cineasta aprecia particularmente. “É também o encontro entre duas pessoas que, pelo menos no início, acham que nunca mais se vão ver. É esta relação desligada entre motorista e passageiro que, de certa maneira, permite que algo se abra. Depois há a história pessoal de cada um que define o ‘para onde’ do título. Será que esta é apenas uma questão geográfica ou também moral? É uma mistura.” O realizador quer acreditar que o filme transmite alguma possibilidade de diálogo entre palestinianos e israelitas.

Questionado diretamente sobre a possibilidade de autocensura num tema sensível como o conflito israelo-palestiniano, Assaf Machnes nega, esquivando-se para alguns dos principais desafios enfrentados durante a produção: “Normalmente as questões criativas, técnicas e financeiras vêm juntas. O facto de termos um orçamento baixo influenciou a forma de contar a história dentro do carro, porque a Alemanha está cheia de regras e, se quiseres montar a câmara fora, tens de bloquear uma rua. Muito cedo percebemos que talvez tivéssemos de combinar estúdio. Foi a nossa primeira longa-metragem, tivemos de perceber como fazer.”

Ainda assim, Machnes reconhece valor criativo nas restrições: “Gosto disso. As necessidades ou limites de produção às vezes dão-te ideias criativas ou mais clareza. Às vezes.”

O Festival de Berlim termina a 22 de janeiro.

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