My Wife Cries: o método Schanelec de atuar

(Fotos: Divulgação)

Formada em Teatro em Frankfurt e consagrada como atriz antes de se dedicar à realização, em 1991, com Lovely Yellow Color (1991), a alemã Angela Schanelec considera Édipo Rei (1962), de Pier Paolo Pasolini, um dos filmes mais belos alguma vez feitos desde a invenção do Cinema, pela sua rara fusão entre o mitológico e o realismo — entre deuses e ruas.

Esse apreço ajuda a explicar o modo como a cineasta, hoje com 62 anos, procura na herança dos mitos algo que permanece no humano: a exasperação afetiva, a sensação de desejo nunca plenamente satisfeito, o que escapa entre aquilo que se sente e aquilo que se consegue dizer.

Agathe Bonitzer e Vladimir Vulević tornaram-se testemunhas diretas do seu processo semiótico ao protagonizarem My Wife Cries (Meine Frau weint), em competição pelo Urso de Ouro de 2026. Na 76.ª Berlinale, o filme tem sido descrito como um estudo sobre a incomunicabilidade. O elenco discorda.

“O êxito da comunicação é o verdadeiro problema das personagens, pois, se existe um triângulo amoroso aqui, ele estabelece-se entre uma mulher, um homem e a linguagem”, afirma Agathe, em entrevista ao C7nema.

“É uma história sobre interseções… sobre o que se interpõe entre duas pessoas”, acrescenta Vladimir.

Cena de “My Wife Cries”

Angela confiou aos dois a tarefa de defender My Wife Cries (Meine Frau weint) na habitual maratona de promoção junto da imprensa, em Berlim. A narrativa decorre num dia comum de trabalho num estaleiro. Thomas, operador de grua de quarenta anos, recebe uma chamada da esposa, Carla: precisa de a ir buscar ao hospital. Quando chega, encontra-a a chorar e descobre que sofreu um acidente de automóvel. Carla conta-lhe que seguia com o seu parceiro de dança, David, com quem ia visitar uma casa no campo, e que ele morreu no acidente. Tenta explicar tudo ao marido de forma aberta e honesta, mas Thomas fecha-se progressivamente. Não conseguem compreender-se.

“Lemos apenas o argumento, sem discutir os aspetos mais profundos da narrativa, e depois iniciámos um trabalho lento e paciente de descoberta sobre quem eram aquelas pessoas. Há uma solidão nelas… mas é uma solidão que acontece na partilha, na troca”, afirma Agathe. “Ela conduz-nos sem indicar o que vai acontecer, apenas com a certeza de que o amor entre aquelas pessoas permanecerá, de algum modo. Ensaiámos muito, e eu e o Vladimir encontrámos uma espécie de partitura de ação, um ritmo próprio.”

O ator fala também do rigor que tornou a cineasta reconhecida em Musik (2022) e em I Was Home, But (2019), distinguido com o Urso de Prata de Melhor Realização na Berlinale. “Ela faz no máximo dois ou três takes e, à medida que filmamos, aquilo que parecia belo no início torna-se banal, e o banal pode tornar-se belo.”

A competição pelo Urso de Ouro prolonga-se até 22 de fevereiro.

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