Moscas: o zumbido do neorrealismo mexicano

(Fotos: Divulgação)

Comparado a Central do Brasil (1998), marco do Novo Neorrealismo latino distinguido com o Urso de Ouro, o drama mexicano Moscas (2026), de Fernando Eimbcke, desponta na competição de 2026 por um diálogo claro com a tradição do melodrama social.

O Ladrão de Bicicletas (1948), de Vittorio De Sica, foi uma base para este filme, tal como The Kid (1921), de Chaplin, e Central do Brasil (1998), de Walter Salles, porque filmámos como se fosse um documentário, a correr pelas ruas sem fechar o trânsito. Só pedíamos autorização às pessoas que passavam e dizíamos: ‘Estamos a filmar um filme’. Queríamos o espaço aberto. Este é um filme de luz”, explicou Eimbcke ao C7nema, antes de dar a palavra ao seu jovem protagonista, Bastian Escobar.

“Diverti-me a filmar. Só ficava nervoso quando as coisas não saíam como eu queria”, confessou o miúdo, que conquistou Berlim.

No argumento, a solitária Olga (Teresita Sánchez) leva uma rotina avessa a afectos até se ver obrigada a alugar um quarto em casa para conseguir dinheiro para uma intervenção cirúrgica aos pés. Um homem (Hugo Ramírez) candidata-se ao quarto, sem lhe contar que tem um filho pequeno, Cristian (Bastian Escobar). A mãe do menino está hospitalizada, a lutar contra uma doença terminal. Em determinado momento, Olga terá de tomar conta da criança, o que a retira da sua zona de conforto e conduz o público a situações onde o humor surge com naturalidade.

“Uma das formas mais íntegras de nos aproximarmos do humanismo é através do humor. Não é rir das pessoas, mas tratar as situações com graça”, afirmou Eimbcke, que introduz ainda um confronto simbólico entre o digital e o analógico ao incluir um videojogo dos anos 1990 e um leitor de cassetes. “O jogo que usamos parece um gadget simples, com uma luz que acende e outra que apaga. É pouca informação, e isso dá espaço à luz.”

Michel Franco surge nos créditos como produtor. “Tenho ciúmes dele, que consegue fazer dois filmes por ano. Quero ser como ele”, brincou Eimbcke, cuja realização revela um rigor quase espartano no controlo do tempo — e das emoções.

A Berlinale termina no próximo domingo, embora os prémios sejam anunciados no sábado.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/nwrw

Últimas