“A Fabulosa Máquina do Tempo” leva lirismo às veredas documentais de Berlim

(Fotos: Divulgação)

Edificada sobre um limite ténue entre o lirismo infantojuvenil e o realismo documental, A Fabulosa Máquina do Tempo (2026), nova longa-metragem de Eliza Capai, levou o Brasil à abertura da secção Generation Kplus da Berlinale. A exibição no Auditório Miriam Makeba, na Haus der Kulturen der Welt, foi marcada por uma receção calorosa do público, com risos ao longo de todo o filme e aplausos em cena aberta. Em concurso pelo prémio de Melhor Documentário da secção, a atribuir no próximo dia 21, a produção teve a sua estreia mundial em solo alemão num momento em que o seu país celebrava o Carnaval. Por isso, a equipa de Eliza Capai decidiu transformar a passagem pela maratona cinéfila germânica numa celebração à moda brasileira: uma personagem em referência ao herói televisivo Fofão, presente na narrativa da realizadora, participou no tapete vermelho e colocou o público a dançar ao lado das meninas protagonistas, numa performance espontânea.

Eliza Capai e suas estrelas na Berlinale – Crédito: Laura Sobenes Sono

“Existia um desejo de pensar, através da fantasia infantil, temas tão profundos como o machismo estrutural”, disse a cineasta ao C7nema.

Em 2019, saiu da Berlinale com o Prémio da Amnistia Internacional por Espero Tua (Re)volta e, em 2023, venceu o festival É Tudo Verdade com Incompatível com a Vida. Filmado no Piauí, A Fabulosa Máquina do Tempo disputa também o Urso de Cristal na secção Generation Kplus, dedicada a obras que dialogam com narrativas sobre infância, crescimento e amadurecimento. A longa-metragem retrata um grupo de meninas que, através de conversas e brincadeiras, revelam um universo lúdico que dialoga diretamente com temas que vão desde a complexidade do casamento e das diferenças de género até às alegrias da infância.

“O uso da fantasia foi bastante natural no percurso do filme. Antes de filmar, fiz um estudo de referência muito amplo de filmes protagonizados por crianças e adolescentes e fui percebendo como poderíamos retratar o lúdico, essa outra forma de olhar o mundo das crianças, e como transformar isso em cinematografia. Nos filmes do sertão, se pensarmos de Cabra Marcado para Morrer (1984) a Bacurau (2019), o mítico, uma certa loucura, um lugar da fantasia, estão muito presentes. Bebi muito nessas fontes e em filmes que também oscilam entre o documental e a ficção. A própria máquina do tempo tem uma inspiração muito forte em Branco Sai, Preto Fica (2014), naquela nave construída pelo Adirley Queirós”, explica Eliza Capai.

“Sinto-me muito privilegiada por ser documentarista, por poder pegar em temas que me angustiam, me revoltam ou me mobilizam e passar anos a estudá-los, procurando formas de os contar. Em geral, começo os filmes de forma mais otimista e a própria vida vai pregando algumas partidas. Mas os filmes mostram-me que, por mais difícil que seja, o mais interessante e íntegro é encarar a vida. Encarar a vida na sua complexidade. Não há bem e mal absolutos, é muito mais complexo do que isso. Ao mergulhar nesses abismos, nesses escuros, aprendemos e pulsamos por uma vida melhor. É aí que chegamos a A Fabulosa Máquina do Tempo: crianças a observar um passado de escravidão, o machismo que as rodeia e a pensar no que vão fazer com isso.”

A Berlinale decorre até 22 de fevereiro.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/y5xv

Últimas