Realizada num ZooPalast com lotação esgotada, a exibição da curta-metragem filmada em iPhone, Sandiwara, integrada à pressa na programação da 76.ª Berlinale, confirmou as expectativas e revelou-se uma das sessões mais concorridas destes primeiros dias do festival alemão. Confirmou também a dedicação do seu realizador, Sean Baker, a meios tecnológicos de registo de imagem profundamente domésticos. A forte adesão do público justificou-se pela conjugação de dois nomes consagrados com Óscares, representantes de percursos distintos mas complementares: por um lado, a independência criativa de Baker; por outro, a longevidade e versatilidade da atriz malaia Michelle Yeoh. Baker, distinguido em 2025 com quatro estatuetas da Academia por Anora, dirige a vencedora do Óscar em 2023 por Everything Everywhere All at Once, num exercício cinematográfico de apenas onze minutos. A apresentação do filme em Berlim ganha especial significado pelo facto de Yeoh ter sido escolhida para receber o Urso de Ouro Honorário deste ano, assinalando quatro décadas de carreira. A curiosidade em torno de um novo trabalho de Baker, ainda por cima em formato breve, foi mais do que suficiente para encher a sala logo nas primeiras horas do dia.
“O cinema liga-nos e aproxima-nos, o que nos leva a empenharmo-nos para manter essa tradição artística viva”, disse Michelle Yeoh à Berlinale, em paralelo com uma conversa pública com Sean Baker no ZooPalast, onde o cineasta revelou ter deitado fora o argumento inicial que tinha ao deparar-se com o esplendor cultural malaio.
Em Sandiwara, Michelle Yeoh surge no centro de uma narrativa que se desenrola na paisagem urbana vibrante de Penang, na Malásia, compondo uma personagem que promete marcar o seu percurso recente. O enredo presta homenagem à herança gastronómica asiática e, em simultâneo, celebra o espírito resiliente do cinema independente.

“Construo o meu universo temático com base nos desabafos de pessoas que têm de correr para casa para estender a roupa no estendal, sem qualquer glamour no que fazem. É o tipo de depoimento que humaniza, que gera identificação”, disse Baker em entrevista via Zoom ao C7nema, mediada pela Golden Globe Foundation. “Na ficção, quando se formata uma narrativa sob a mediação de uma perspetiva sociológica, a realização corre o risco de cair na pregação, de se tornar uma palestra. Num filme documental posso abrir-me a essa reflexão social de base. No caso do entretenimento, se parto da premissa de pregar, perco a plateia.”
Em declarações prestadas também na manhã de sexta-feira, à margem da repercussão internacional de Anora, Baker voltou a sublinhar a coerência temática do seu percurso. Explicou que o seu cinema se concentra em figuras colocadas à margem, afastadas das promessas do chamado “sonho americano”, e que é precisamente dessa exclusão que nasce uma forma particular de idealismo. O realizador recordou ainda o percurso do filme, distinguido com a Palma de Ouro no Festival de Cannes em maio de 2024, passo decisivo para a sua afirmação na corrida aos prémios da Academia.
A edição deste ano da Berlinale conta com Wim Wenders na presidência do júri. Já em 2025, a deliberação do Urso de Ouro esteve a cargo de um coletivo liderado por Todd Haynes, cineasta associado a obras de orçamento reduzido como Velvet Goldmine (1998) e Carol (2015). Haynes destacou então o percurso de Baker como exemplo da vitalidade do cinema independente, lembrando que o realizador iniciou a sua carreira a filmar com telemóveis, prova de que a autonomia criativa pode abrir novos caminhos de expressão. Anora, produzido com uma verba na ordem dos seis milhões de dólares e amplamente rentabilizado em bilheteira, consolidou o estatuto autoral de Baker, que desde Tangerine (2015) tem explorado uma estética nervosa, marcada por planos-sequência intensos e por uma atenção constante ao quotidiano de trabalhadoras do sexo. Em The Florida Project (2017), apresentado na Quinzena dos Realizadores em Cannes, abordou a precariedade nas franjas do paraíso turístico; em Red Rocket (2021), acompanhou uma estrela pornográfica em declínio. Agora tem em mente uma homenagem à comédia erótica italiana.
“Entro e saio do mundo do sexo sempre com novas amizades”, disse Baker ao C7nema.
No próximo dia 21, a Berlinale 76 chega ao fim.


