Mostra Tiradentes reúne curadores internacionais para discutir os desafios do cinema contemporâneo

(Fotos: Divulgação)

Desde os anos 2010, uma das principais virtudes da Mostra de Tiradentes, no panorama dos festivais de cinema no Brasil, tem sido a sua capacidade de aglutinar curadores e programadores de algumas das mais relevantes maratonas competitivas da Europa e das Américas, tanto nas projecções como nos fóruns de debate realizados em Minas Gerais.

Este ano, um grupo internacional de peso participa numa conversa intitulada Futuros Imaginados, dedicada ao papel do cinema — e ao seu futuro — numa era em que a atenção é disputada de forma agressiva pelos telemóveis. A crise das salas de projecção, a concorrência das plataformas digitais, a concentração do mercado audiovisual, o enfraquecimento dos modelos de financiamento e o avanço da inteligência artificial estarão no centro do debate, que reúne Álvaro Arroba (BAFICI, Quinzaine des Cinéastes, Seminci), Roger Koza (Doc Buenos Aires, Filmfest Hamburgo, Viennale), Walter Toppelmann (FIDBA, Málaga WIP) e Francis Vogner dos Reis, coordenador curatorial da Mostra de Tiradentes. A moderação ficará a cargo de Claire Allouche, curadora associada ao Conexão Brasil CineMundi, em França. O encontro terá lugar no encerramento do festival mineiro, no sábado.

“A nossa orientação em Tiradentes é procurar conformar, em cada programação, uma ampla diversidade imaginativa, à escala e à multiplicidade que um país continental como o Brasil pode oferecer”, explica Vogner ao C7nema. “Disputamos o termo-valor ‘diversidade’. Divergimos de uma concepção limitada, reduzida à algoritmização dos produtos audiovisuais como experiências seguras, sem risco, que rebaixam a sensibilidade ao médio e ao palatável, anulando o desafio à percepção do espectador, que pode — e deve — permanecer activo no pensamento e na emoção durante a projecção.”

O curador acrescenta que também não faz sentido uma diversidade de temas e de sujeitos confinada a formas e modos de criação alinhados com um regime estético hegemónico. “Quando falamos de estética, não perdemos de vista a sua dimensão política: a capacidade de uma obra fazer ver, sentir e ouvir o mundo de outra forma, tornando visível aquilo que fomos condicionados a não ver.” Para Vogner, interessa um cinema que aposte na suspensão de expectativas e na aventura da percepção, onde cada experiência tenha o direito de surpreender — ou de decepcionar. “Não nos interessa eleger bons ou maus filmes, mas criar deslocamentos, provocar o espectador a sair do seu enquadramento narcísico baseado apenas na identificação confortável.”

Iniciada na sexta-feira passada com O Fantasma da Ópera (de Júlio Bressane), a Mostra de Tiradentes encerra no próximo sábado, dia 31, com a entrega de prémios e a exibição de Copacabana, 4 de Maio (de Allan Ribeiro). Também no dia 31, uma outra mesa de conversa recebe Cíntia Gil (Portugal), Cyril Neyrat (do FIDMarseille) e Romeo Umelisa (do Creative Africa Lab, de Ruanda), a fim de debater as estratégias de difusão.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/3wku

Últimas