Onze meses depois de colherem aplausos europeus na projeção de Ato Noturno na Berlinale, onde o filme teve a sua estreia mundial, os realizadores Filipe Matzembacher e Márcio Reolon levam o thriller afetivo de pulsão queer ao circuito exibidor do seu país de origem, o Brasil, recordando aos compatriotas a inquietação que atravessa o cinema do Rio Grande do Sul. A dupla parte de Porto Alegre, capital do estado, para construir uma narrativa explosiva sobre desejo numa nação ainda marcada pela homofobia.
Laureados no estrangeiro com Tinta Bruta (2018), Matzembacher e Reolon contam agora a história de um ator e de um político que vivem uma relação secreta e que descobrem partilhar um fetiche por sexo em espaços públicos. À medida que se aproximam do sonho da fama, mais intenso se torna o impulso de se colocarem em risco.
Já em exibição nas salas brasileiras, Ato Noturno foi um dos destaques da última edição do Festival do Rio, onde valeu três Prémios Redentor: Melhor Ator, atribuído ao estreante em longas-metragens Gabriel Faryas; Melhor Argumento, para Matzembacher e Reolon; e Melhor Fotografia, para Luciana Baseggio. A produção foi ainda distinguida como Melhor Filme no Prémio Félix, dedicado a obras com temática LGBTQIAPN+.

Os dois cineastas conversaram com o C7nema sobre o filme e o seu percurso.
Como se constrói a relação entre Matias (Gabriel Faryas) e Rafael (Cirillo Luna), as protagonistas do filme?
Filipe Matzembacher:
São personagens que, pouco a pouco, começam a abdicar da própria subjetividade, dos seus desejos e de quem são, para tentar pertencer e alcançar uma ideia muito específica de sucesso neoliberal. Isso vai isolando-as. Poucas pessoas à sua volta têm consciência desse exercício diário. Ligam-se pelo desejo carnal, mas também porque se revêem uma na outra. Vêm de contextos muito diferentes, mas percebem que a outra compreende algo do que estão a viver. É daí que nasce e se intensifica a relação.
Qual a importância da Berlinale na vossa trajectória?
Márcio Reolon:
O Festival de Berlim é muito importante para nós. Desde a nossa primeira longa-metragem, Beira-Mar (2015), acreditaram no nosso trabalho. Fizemos esse filme muito jovens, com pouco mais de vinte anos, praticamente sem orçamento — custou cerca de sete mil reais. Mesmo assim, exibiram-no na secção Fórum. Três anos depois, com Tinta Bruta, fomos selecionados para a Panorama e vencemos dois prémios: o Teddy Award de Melhor Filme e o Prémio de Melhor Filme da Panorama atribuído pelo Júri CICAE dos Cinemas de Arte da Europa. Agora, com Ato Noturno, regressámos à Panorama, que foi o melhor espaço possível para o filme nascer. É uma ligação muito forte. O festival acredita no cinema que fazemos, e os nossos filmes têm encontrado ali diálogos intensos com público, crítica e exibidores. É difícil separar a nossa carreira desta relação.
Que papel assume Porto Alegre em Ato Noturno?
Márcio Reolon:
Porto Alegre tem sido uma personagem recorrente nos nossos filmes, mas aqui assume outra posição. Em Tinta Bruta, era quase uma antagonista. Em Ato Noturno, pensámos a cidade a partir do cinema noir, como uma espécie de femme fatale. É um espaço que oferece possibilidades, mas também perigo. Seduz as personagens e, ao mesmo tempo, pode destruí-las. Olhar para a cidade com esse filtro foi muito estimulante.
Como vêem hoje o cinema feito no Rio Grande do Sul?
Filipe Matzembacher:
O nosso interesse é olhar para o Rio Grande do Sul e para as nossas histórias não para repetir fórmulas, mas para pensar esse território de forma honesta e explorar os seus elementos. O cinema gaúcho existe apesar das condições. Não há grande apoio do Governo do Estado nem da Prefeitura de Porto Alegre. Dependemos quase exclusivamente de apoios federais, o que cria uma desigualdade em relação a outras regiões. Há muitos realizadores interessantes, também nas curtas-metragens, mas com dificuldade em chegar às longas. Espero que o cinema gaúcho se torne mais recorrente, pulsante e diverso quando o Estado compreender isto como preservação cultural e também como potência económica.
Em que projectos estão a trabalhar actualmente?
Márcio Reolon:
Estamos a desenvolver dois projetos em simultâneo. Um é um western para ser filmado no interior do Rio Grande do Sul. O outro é um filme de terror dramático. Ainda não sabemos qual avançará primeiro. Estamos num momento de grande explosão criativa, a escrever e a desenvolver vários projetos em paralelo. Ambicionamos uma produtividade intensa nos próximos anos.

