‘Separações” retorna… na saudade de Domingos Oliveira

(Fotos: Divulgação)

Coroada pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) com o prémio de Melhor Iniciativa de 2025, pela criação de uma transmissão diária de filmes brasileiros de culto em formato broadcast (televisão aberta), a emissora pública TV Brasil encerra o ano com um tributo a um dos grandes cronistas do amor romântico da América do Sul: Domingos de Oliveira (1936–2019). Esta terça-feira, o canal exibe, às 21h (00h em Lisboa), o êxito de bilheteira Separações (2002). De cariz (auto)biográfico, a narrativa acompanha a luta do multiartista Cabral (interpretado pelo próprio Domingos) para reconquistar o afeto de Glorinha, personagem de Priscilla Rozenbaum, companheira de vida e de obra do realizador fora do ecrã.

“Fizemos um manual sobre a separação, tanto que brincávamos dizendo: ‘não cases e não te separes sem ver Separações’. Falávamos de um filme com o qual ganhámos muitos prémios, em diferentes categorias e festivais”, recorda Priscilla. “Foi lançado com apenas sete cópias. Esperávamos pelos espectadores à saída das salas. Era quase um Rosa Púrpura do Cairo, com atores a sair do ecrã à porta do cinema.”

Uma das mais aguerridas guardiãs da obra de Domingos — dramaturgo, argumentista de televisão, ator e cineasta — Priscilla encontra-se atualmente envolvida num projeto teatral sobre Jean-Luc Godard (1930–2022), desenvolvido com o ator José Karini e o encenador Felipe Vidal. Paralelamente, tem pela frente meses intensos, a julgar pelas várias celebrações em torno do seu parceiro falecido (ou, melhor, eterno). Assinalam-se os dez anos de BR716, a dramédia memorialista que valeu a Domingos o prémio Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado de 2016; os 60 anos da obra-prima Todas as Mulheres do Mundo, distinguida com o Candango no Festival de Brasília de 1966; e ainda os festejos — merecidos — dos seus 90 anos, que seriam completados em outubro e que serão celebrados postumamente com a alegria que marcou a sua vida e obra. Em meio a estas efemérides, a TV Brasil antecipa-se e abre caminho ao exibir Separações.

Na história, Cabral vive apaixonado por Glorinha (Priscilla), mas sofre com a inquietação filosófica de que “amar é querer o bem do outro”. A certa altura, esse querer joga contra si, ao impedi-lo de usufruir de outras vivências. Por isso, propõe repetidamente “folgas” à companheira. Num desses intervalos, o casal cruza-se com o arquiteto Diogo (Fábio Junqueira), antigo aluno de Cabral, que guarda na gaveta um romance inacabado. O encontro acaba por flechar o miocárdio de Glorinha, afastando-a do parceiro. A rutura repercute-se ainda na vida do encenador Ricardo (num desempenho hilariante de Ricardo Kosovski), ex-namorado de Glorinha, atualmente envolvido com a jovem Maribel (Nanda Rocha); da atriz Júlia (Maria Ribeiro, numa interpretação exemplar), filha de Cabral; e de Laura (Suzana Saldanha), confidente do artista atormentado.

A pedido do C7nema, Maria Ribeiro — atriz de sucessos como Tropa de Elite (2007) e Como Nossos Pais (2017), e autora do livro Não Sei Se É Bom, Mas É Teu (ed. Record) — escreveu as suas memórias sobre Separações:

Maria Ribeiro com Domingos Oliveira em “Separações”, que venceu o Festival de Mar Del Plata, em 2003

Acho que, de todas as frases importantes do filme Separações, de Domingos de Oliveira — e são muitas — a que mais repito, de longe, é: ‘o amor é uma selvajaria’. A cena é assim: um casal, recém-separado, combina encontrar-se num bar. Ele (Domingos), louco por voltar para ela (Priscilla Rozenbaum), propõe, desesperado, que tentem mais uma vez. Ela, decidida, conta que resolveu viajar durante alguns meses e que tem achado importante seguir sem ele. Ele, então, destrata-a e diz que ‘ela que fique com os seus namorados’, que vai esquecê-la, que a odeia, que não quer vê-la nunca mais. Atónita perante tanta agressividade, ela faz a pergunta em que passamos a vida a querer acreditar: ‘mas tu não disseste sempre que amar era querer o bem do outro?’. Ao que ele responde, com uma crueza que só costuma surgir em momentos decisivos, como mortes, nascimentos e separações: ‘não, isso é mentira, uma bobagem, uma tolice que eu dizia no tempo em que era feliz. O amor é uma selvajaria’. Touché.

Domingos de Oliveira, para mim — como sabem todos os que me acompanham minimamente — é isso: uma coleção de frases que sustentam as minhas pernas há 30 anos. Quando o conheci, aos 19, num teste para o filme Amores, não tive dúvidas de que tinha encontrado a minha alma gémea. A sua visão do mundo, repleta de amor e humanidade, era tudo o que eu precisava para acreditar que o mundo era bom e que existiam pessoas que pensavam a vida, o cinema e as relações de forma próxima da minha. Isso libertou-me, finalmente, de uma solidão que já durava duas décadas.

Ser parte deste filme, que nasceu de uma peça de teatro e foi filmado em 2001, representa um marco fundamental na história da minha filmografia. Foi feito em grupo, filmado no apartamento de Domingos, com muito improviso e poucos recursos. Era, por isso, a concretização de uma ideia: não apenas de como fazer filmes, mas de como trabalhar com amigos e registar o nosso tempo e os nossos afetos. Isso transparece no ecrã e nunca sai de dentro do peito. O amor pode até ser uma selvajaria, como ele diz naquela cena, mas, através da obra de Domingos, é uma selvajaria tão humana que dá vontade de abraçar desconhecidos na rua — e de distribuir, como panfletos, palavras de ternura e de perdão.

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