“Não é justo para os cineastas”: diretor artístico do CIFF desafia a competição entre os festivais de cinema árabes

(Fotos: Divulgação)

Num período em que os festivais de cinema do mundo árabe disputam as estreias e uma maior visibilidade, o Festival de Cinema do Cairo (CIFF) procura reposicionar-se como referência regional e ponto de encontro entre criadores, críticos e público. A liderar a estratégia na direção artística está o crítico Mohamed Tarek, defensor de uma abordagem menos competitiva e mais colaborativa entre os festivais da região. A nova fase do CIFF nasce desse impulso: recuperar a centralidade que o Egito conquistou ao longo de um século e que, segundo ele, continua viva, mesmo que por vezes invisível fora da região. “O cinema egípcio tem mais de cinco mil filmes. E, no estrangeiro, só conhecem Youssef Chahine. Ele é genial, claro, mas há outros. Precisamos de restaurar, mostrar, explicar o nosso cinema. Há uma história inteira que falta descobrir.”

Mohamed Tarek

Sucessor de nomes como Amir Ramsés e Essam Zakarea, com quem já trabalhou no festival, Tarek fala com a energia de quem vive dentro das salas. Assume que o cargo obriga-o a equilibrar tradição, pressão internacional e expetativas locais, mas descreve esse desafio como um ofício quase físico. Quando assumiu a direção artística, tinha um objetivo imediato: “Queria mais inclusão. Mais diversidade. Uma programação que permitisse diferentes vozes e não apenas uma assinatura curatorial única.” A equipa, sublinha, foi montada com esse propósito. “Não tenho de concordar com todos os filmes escolhidos. Os programadores têm o direito de defender as suas descobertas. O trabalho deles é oferecer caminhos ao público.”

Parte desses caminhos passa pelas curtas-metragens, que Tarek devolveu ao centro da programação depois de anos de insistência. “Trouxemos novamente as curtas para a maior sala da Ópera. Essas sessões enchem sempre. Não faz sentido tratá-las como um formato menor.” Outra intervenção estrutural foi a renovação da área dedicada às novas tecnologias. “Recuperámos a secção de VR, mas de forma totalmente diferente. Agora chamamos-lhe ‘new media’. Temos ecrãs a 270 graus, murais de realidade aumentada, experiências híbridas. É uma ponte entre os clássicos e o futuro.”

Mas o futuro não se joga apenas na dimensão estética. Exige também diplomacia. A concorrência entre festivais árabes — de Jeddah (Red Sea FF) a Marraquexe, passando por El Gouna e Doha — intensificou-se, e Tarek reconhece que este novo mapa pode penalizar sobretudo quem faz os filmes. “A competição dos festivais não beneficia os cineastas; beneficia agentes de vendas. Um realizador pode demorar cinco anos a fazer um filme e depois esse filme passa só num lugar. Não é justo.” A resposta do CIFF foi experimentar outra lógica. Em Cannes, reuniu representantes de vários festivais e propôs cooperação. “Funcionou. Do You Love Me está aqui, estará em Marraquexe, estará no Doha ou no Red Sea. Criámos diálogo. Há espaço para todos.”

Life After Siham

É nesse espírito que o festival acolhe também filmes nascidos nas suas próprias oficinas. Life After Siham começou no Cairo Film Connection. A versão original tinha voz-off em francês; para o Cairo, fizemos em árabe. Trabalhamos para o nosso público. O público de Jeddah não vem ao Cairo ver filmes, portanto continua a ser uma estreia para eles.”

A relação com a indústria egípcia — vasta, híbrida e contraditória — é outro pilar da sua visão. Tarek descreve o ecossistema audiovisual com familiaridade: “A maior parte da indústria não é só cinema. É televisão, publicidade, produção para o Golfo. As equipas egípcias trabalham na Arábia Saudita, nos Emirados. É uma grande indústria, mas não apenas cinematográfica.” Isso explica as 50 a 55 produções audiovisuais por ano e a vitalidade das séries, sobretudo no Ramadão. “Alguns episódios são melhores do que muitos filmes. Não vejo problema nenhum nisso.”

Sobre inteligência artificial, rejeita alarmismos. “Todos a usamos. Não podemos dizer que não existe. E quando surgiram as câmaras digitais também houve pânico, e nem por isso toda a gente virou cineasta.” A IA é, para ele, apenas mais uma ferramenta: capaz de gerar imagens absurdas — “um gato a trabalhar num campo minado” — mas também de abrir portas a criadores sem meios.

Entre diplomacia, preservação e inovação, Tarek imagina o futuro sem perder o pé no presente. Garante que o glamour dos tapetes vermelhos é necessário — “Essa faceta atrai os patrocinadores” — mas insiste que o verdadeiro poder do festival está na relação com o público. “Trabalhamos para eles. Queremos que o Cairo continue a ser um lugar onde se vê cinema como parte da vida.” E sublinha a importância da crítica: “Críticos são fundamentais. São a linha da frente de qualquer festival.”

No fim, tudo converge na mesma obsessão: devolver ao Egito a sua escala. “O nosso impacto regional é internacional.” Para Tarek, o Cairo não precisa de reinventar a sua centralidade — apenas de a tornar novamente visível.

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