Com os olhos vidrados nas projeções de O Agente Secreto nos cinemas, na esperança de ter mais um blockbuster neste final de ano, o cinema brasileiro tem uma esperança paralela em curso, noutro âmbito — o do Cinema — para ultrapassar a barreira do milhão na venda de bilhetes na reta final de 2025: Silvio Santos Vem Aí. A estreia está marcada para 20 de novembro. Os augúrios em torno do seu futuro são dos melhores.
Rachado entre dois jingles, de um lado “Colorir para mudar”, do outro “Lula lá, brilha uma estrela”, o Brasil de 1989, às vésperas da sua primeira eleição presidencial democrática após 21 anos de ditadura, passou dez dias a cantarolar “É o 26! É o 26! Com Silvio Santos chegou a nossa vez”. Naquele ano, entre o final de outubro e a segunda semana de novembro, prestes a o país ir às urnas, o maior comunicador da história da televisão latino-americana fez do seu carisma um trampolim para o Planalto.
Citando entre as prioridades básicas do seu plano de governo ações nas áreas da alimentação, saúde, habitação e educação, além de um ataque à inflação alta e à correção do salário mínimo, os reclames publicitários do seu projeto rumo a Brasília atestavam: “Agora o povo está contente / Já temos em quem votar”. Até o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impugnar a sua candidatura, alegando irregularidades no registo do seu partido (o PMB) e vínculo com um canal de televisão (o SBT), o vendedor ambulante mais mediático das Américas tirou votos ao PT e ao PRN de Collor e fez o seu fã-clube sonhar em vê-lo com a faixa de Presidente da República.
Foi um período conturbado para o apresentador, para os seus adversários e para a democracia, com episódios dignos de sátira política ou de thriller. No entanto, a versão que o recém-filmado Silvio Santos Vem Aí promete trazer desse tempo é de riso, de afeto e de brasilidade — a santíssima trindade de valores que fizeram de Leandro Hassum a maior diversão do cinema popular.
Coube à cineasta Cris D’Amato, realizadora da franquia milionária S.O.S. Mulheres ao Mar (2014-15), dar um colorido leve ao histórico presidenciável de Senor Abravanel (1930-2024), nome real de Silvio, trazendo as figuras míticas dos seus programas (como Lombardi e Roque) para o grande ecrã, numa produção da Paris Entretenimento.
Segundo a realizadora, que trabalhou em séries como As Cariocas e As Brasileiras ao lado do Midas da teledramaturgia Daniel Filho, não se trata de um filme político, mas sim de um filme de homenagem, que capta a essência de Silvio Santos. O Brasil foi alfabetizado pela televisão e Silvio teve um papel essencial nesse processo. Cris D’Amato recorda que, em criança, quando visitava as avós na Tijuca e na Vila Isabel, aos fins de semana, ouvia televisões sintonizadas no Domingo no Parque e no Show de Calouros por onde quer que passasse. Essa vivacidade e essa alegria que ele simbolizava guiam o filme — tanto no argumento de Paulo Cursino como no trabalho de Hassum, que, segundo a realizadora, nunca faz caricatura do apresentador.
Depois do fracasso que foi Silvio, com Rodrigo Faro, há quem tema releituras caricaturais do ícone do antigo canal 11, a ex-TVS, que comandava Namoro na TV e o Show do Milhão com a mesma picardia. Porém, quem tem Hassum no elenco conta com um verdadeiro titã.
O recorte de 1989 é uma forma de abordar o poder que a televisão teve de quase eleger um animador. O ator, que tem outros filmes prestes a sair do forno, como O Rei da Feira, volta assim ao grande ecrã em grande estilo.
Em 2012, conhecido pela silhueta GG que deixou para trás após uma cirurgia bariátrica, Hassum protagonizou Até Que a Sorte Nos Separe (2012), um projeto da Gullane Pictures sob a realização de Roberto Santucci (De Pernas Pro Ar). Na época, brilhava na televisão (onde ainda brilha) e nos palcos (onde continua a brilhar), mas ambicionava afirmar-se como protagonista no cinema. O filme vendeu, logo à partida, 3.432.448 bilhetes, gerando duas sequelas, além de uma segunda franquia, O Candidato Honesto.
Só nessas duas cinesséries e num derivado de Os Caras de Pau, arrastou 15 milhões de espectadores às salas, assumindo um trono outrora ocupado por Oscarito, Mazzaropi e Renato Aragão: o posto de rei do humor popular. Renovou essa majestade no streaming, em 2020, quando Tudo Bem No Natal Que Vem (2020) se tornou um dos maiores fenómenos de audiência da Netflix. Simbiose mais perfeita com a persona de Silvio Santos seria impossível.
Pautado pela audácia habitual — e precisa — de Paulo Cursino, um dos argumentistas de maior êxito comercial do país, Silvio Santos Vem Aí revela os bastidores do programa dominical do SBT, a reboque da eleição de 1989. Na trama, Manu Gavassi interpreta Marília, publicitária que vai trabalhar com Silvio. Embora inicialmente desconfiada do seu populismo, acaba, aos poucos, conquistada pela garra do apresentador.

