Filme mais assombroso do 27.º Festival do Rio, onde encheu salas, A Própria Carne ambiciona repetir o feito na sua carreira comercial pelos écrans do Brasil, onde estreia na rede Cinemark. Ian SBF, um realizador com vasta experiência nos sketches do Porta dos Fundos, aventura-se pelas veredas do terror dez anos depois de ter alcançado um filme de culto, Entre Abelhas (2015). Ao explorar o território do terror histórico, no tom do folk horror e de uma linhagem de histórias sobre casas habitadas pelo Coisa Ruim, convidou um ás da dobragem carioca (que a cinefilia brasileira chama dublagem) – Luiz Carlos Persy – para dar corpo a um homem mau, nas raias da monstruosidade: o Fazendeiro.
“Sempre amei o terror, porque, para mim, tanto o horror como a comédia tocam-nos em lugares muito primitivos e instintivos”, diz SBF ao C7. “Não é por acaso que algumas pessoas riem de nervoso. O medo é uma língua universal, atravessa culturas e geografias. E, ironicamente, isso é bem diferente do humor.”
Persy conquistou elogios no papel do Fazendeiro, um brutamontes que persegue dissidentes da Guerra do Paraguai num recanto esquecido do século XIX, que o Diabo transforma em casa de veraneio.
“A Guerra do Paraguai foi a maior guerra da história moderna da América Latina. E isso num período ainda escravocrata, o que por si só já é um cenário de puro horror. Quando me perguntam porquê a Guerra do Paraguai, eu, na verdade, penso: por que não? O ambiente deste filme é o da opressão”, afirma SBF.

No argumento escrito pelo cineasta com Alexandre Ottoni e Deive Pazos, em colaboração com Leonel Caldela, somos levados a 1870, quando a América do Sul se encontrava mergulhada num conflito com cheiro a pólvora e coágulos secos. Seguimos os passos de três soldados desertores: Gustavo (Jorge Guerreiro, numa interpretação introspectiva e densa); Anselmo (o ás do riso George Sauma, aqui num registo de agonia); e Gabriel (Pierri Baitelli, notável em cena, com o seu ar ofegante). Cada um deles luta para sobreviver, à sua maneira, até que o trio encontra uma casa isolada na fronteira, habitada apenas por uma jovem (Jade Mascarenhas, num rico exercício de ambiguidade) e por um fazendeiro com ares de Quasimodo, que Persy compõe como um sintagma vivo da putrefacção.
“Há a opressão da escravidão, da guerra, de ser um desertor foragido e ser perseguido eternamente, que é o caso do Gustavo. Esses três homens estão o tempo todo a fugir de uma armadilha para cair noutra ainda maior”, explica SBF. “Queríamos que o espectador sentisse isso também. Que ficasse perdido no tempo e no espaço como eles. O som da guerra vem de todos os lados, e nós trocávamos as paredes internas da casa para nunca haver uma estrutura igual, para que ninguém tivesse certeza de onde era a saída ou a entrada. Como eles. Como na guerra. Não há para onde fugir.”
Quem assistiu à produção no Rio percebeu a dimensão do gigante das artes cénicas que Persy é, para além da sua voz imponente, a mesma que dá vida a Lord Voldemort na saga Harry Potter. Na indústria da dobragem, empresta brasilidade a Javier Bardem, Sam Elliott, Mickey Rourke e Clive Owen.
“Tudo o que procuro é imprimir verdade. Neste fazendeiro do filme do Ian, o trabalho é fazer com que ele, por mais estranho que seja, pareça real, que exista”, afirma Persy, que há 21 anos contracenou com a diva Fernanda Montenegro em O Outro Lado da Rua (2004), filme de Marcos Bernstein apresentado na Berlinale.
O percurso de Persy impõe respeito. Já a sua voz gutural injeta medo. “Conheço e trabalho com o Persy há muito tempo e sempre soube que ele é um génio, mas nunca tinha visto o seu trabalho fora da dobragem”, diz SBF. “Foram o Alexandre Ottoni e o Deive Pazos que tiveram a ideia de o trazer para o papel do Ancião, e, claro, quando fizemos a primeira leitura bastaram-me três frases para ter a mesma certeza que eles. O Persy nasceu para esta personagem.”
A escolha de Vinícius Brum, director de fotografia de títulos como Desapega! (2023), para conceber o desenho de luz do mundo grotesco de SBF foi o grande achado da longa-metragem — não apenas por pavimentar o seu percurso profissional rumo a um novo patamar artístico, mas também pela aposta radical no dionisíaco, numa linha quase B. A iluminação aproxima-se da arte gráfica de Richard Corben nas bandas desenhadas, sobretudo em Creepy.

