“Coração nas Trevas”: o apocalipse animado do Rio

(Fotos: Divulgação)

Único animador a vencer o prémio Redentor de Melhor Realização no Festival do Rio, Rogério Nunes saiu há pouco de Sitges, prepara uma ida a Oslo e já conta com quilometragem registada em Annecy — tudo isso com Coração das Trevas. A sua longa-metragem filtra as vicissitudes geopolíticas do Rio de Janeiro em diálogo com Joseph Conrad (1857–1924) e o seu Heart of Darkness (1899). Foi das páginas desse clássico que Francis Ford Coppola extraiu Apocalypse Now (1979), que lhe valeu a Palma de Ouro. Mas, se no épico sobre o Vietname o horror era o espelho do império, aqui a lente recai sobre a periferia carioca, abençoada pelas entidades das religiões de matriz africana.

Tentar chegar perto do Coppola é duro, pois não tenho a genialidade dele, nem um orçamento de cem milhões de dólares. Em Apocalypse Now, a Guerra do Vietname era pano de fundo, mas não vemos vietcongues no barco onde a trama se passa. Já o nosso filme é entranhado na periferia”, diz Rogério, paulista que confessa amar a Cidade Maravilhosa, em conversa com o c7nema na Mostra de São Paulo. “O Rio de Janeiro é o retrato do Brasil. Um lugar dividido em dois.

Realizador, argumentista e produtor, Rogério Nunes pesquisa uma linguagem artística assente na experimentação de narrativas metalinguísticas, combinando diversas técnicas de animação. Produziu e dirigiu várias curtas e documentários animados, entre os quais Linear (2012), de Amir Admoni, e Bailarino e o Bonde (2009). Entre os seus trabalhos mais recentes está a longa de animação Boca do Lobo, realizada em parceria com Vivian Altman. Ao mergulhar no texto de Conrad, o cineasta aposta na ancestralidade dos credos da Umbanda e do Candomblé.

Fizemos um ebó (oferenda) para Exu e para Ogum, a pedir licença para os abordar”, explica o animador.

Em Coração das Trevas, o tenente Marlon (na voz de Caio Blat) é um jovem oficial da polícia carioca encarregado de encontrar e capturar um certo Capitão Kurtz, lendário agente policial desaparecido em circunstâncias nebulosas durante uma operação marcada pela corrupção. A história decorre num futuro próximo, num Rio de Janeiro mergulhado no caos social. As vias de acesso da cidade foram destruídas por misteriosos ataques de autoria desconhecida e, para agravar, o nível do mar subiu, inundando parte do território. Marlon deve cumprir a sua missão a bordo de um pequeno barco, acompanhado por um polícia de carácter duvidoso, o sargento Medeiros (Babu Santana), numa viagem arriscada pelos canais do mangue e pela Baía de Guanabara — longe dos belíssimos postais turísticos da cidade.

O projeto consumiu doze anos desde a sua conceção, pois esbarrou várias vezes na captação de recursos”, explica Rogério, que contou com coprodução francesa para a longa, orçada em cinco milhões de reais, e que agora ruma a um festival na Noruega.

A Mostra de São Paulo decorre até 30 de outubro.

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