A um passo de completar 90 anos — o aniversário será a 27 de outubro —, o desenhador de BDs, produtor e escritor brasileiro Maurício de Sousa foi homenageado na abertura da Mostra de São Paulo com o prémio Leon Cakoff, honraria que reconhece personalidades essenciais para o avanço da cultura audiovisual. A obra dele notabilizou-se na banda desenhada, em tiras e revistas mensais, mas a fauna de personagens que inventou ganhou as telas na TV e no cinema, em desenhos animados, séries live action e filmes. Um dos mais bem-sucedidos, Lições, de 2021, volta ao circuito na maratona paulista, com várias sessões matutinas nesta quinta-feira. A bilheteira no Brasil totalizou 761 mil ingressos vendidos.
Pontuado por bom humor, Turma da Mônica: Lições avança algumas casas no tabuleiro que vai da infância à “aborrescência”, jogando os dados do existencialismo para desenhar a sua progressão aritmética na vida dos protagonistas. É um fundo que verticaliza mais questões afetivas — solidão, inadequação e sociabilidade — em relação ao primeiro e belíssimo filme da franquia pilotada pelo cineasta e montador Daniel Rezende, sem jamais perder o horizonte de lirismo do universo de HQs a que se reporta. Preserva-se o timbre de peripécias em série da longa-metragem anterior, Laços (2019), vista por cerca de 2 milhões de pagantes, mas há uma condução mais interessada nas emoções dos protagonistas do que na execução de uma jornada clássica.
É, portanto, um filme mais maduro na essência, amplificado pela presença luminosa de Malu Mader como uma educadora pautada pela inclusão e por um desempenho arrebatador de Isabelle Drummond no papel de Tina. Se no “Turma 1” Rodrigo Santoro roubava o filme para si ao aparecer como o Louco, aqui Isabelle consegue, com sensibilidade, escavar uma planície de arrebatamento em meio a uma narrativa de planaltos e precipícios (típicos da puberdade).
Nesta segunda incursão cinematográfica com atores de carne e osso, a Turma reafirma todos os arquétipos das personagens. Mónica (Giulia Benite) continua arredia e impaciente; Cebolinha (Kevin Vechiatto, brilhante) segue ambicioso, com mania de “glandeza”; Magali (Laura Rauseo) continua um saco sem fundo no seu apetite voraz; e Cascão (Gabriel Moreira, um poço de carisma) permanece incomodado com o efeito que duas moléculas de hidrogénio e uma de oxigénio podem fazer no seu corpo. Na trama decalcada da graphic novel dos irmãos Lu e Vitor Cafaggi, o desafio deles vai além das práticas quotidianas que os engessam em parâmetros de (mau) comportamento.
Uma confusão ligada à encenação de uma peça faz com que o quarteto se esqueça de fazer o dever de casa e fuja da escola. Mas nem tudo sai como esperado, e a mãe da Mónica, vivida por Monica Iozzi (com uma retidão comovente), decide mudá-la de colégio. Mesmo fazendo novos amigos, em meio a uma separação forçada, a turminha sente saudades de estar sempre junta. E Mónica não consegue conformar-se com a sensação de indiferença ao não ser procurada por Magali & cia. Ciente dessa confusão e ainda interessado em ser o dono da “lua” (é rua, mas o miúdo troca o r pelo l sem notar), Cebolinha resolve engendrar um plano infalível — mais um — para trazer a amiguinha de volta, mesmo que para isso precise recuperar o coelhinho Sansão para ela. Mas algo dentro do peito de cada um deles parece estar diferente. A manha do roteiro de Thiago Dottori e Mariana Zatz está no posicionamento do alvo central da dramaturgia: o coração em tempo de madureza das meninas e meninos criados nos gibis de Maurício e redesenhados pelos Cafaggi.

