O Doclisboa 2025, importante festival dedicado ao cinema documental, apresenta na sua 23.ª edição um total de 211 filmes, dos quais 31 são portugueses e 31 estreias mundiais, entre os dias 16 e 26 de outubro de 2025, na Culturgest, no Cinema São Jorge, na Cinemateca Portuguesa e no Cinema Ideal. A seleção inclui 93 longas-metragens e 118 curtas-metragens, em grande parte finalizadas em 2025, provenientes de 54 países.
Entre estes títulos, 18 curtas e médias e 33 longas são realizadas por mulheres, números que representam um terço das longas-metragens programadas pelo festival — um verdadeiro viva para nós, mulheres do cinema.
Acredito que o facto de a comissão de programação do Doclisboa ser paritária — composta por três mulheres e três homens — tenha contribuído para este resultado. Ainda não se trata de uma paridade plena entre o número de filmes realizados por homens e por mulheres, mas é um motivo para celebrar.
Infelizmente, não disponho dos números das edições anteriores para comparar. No entanto, é notório que, nos últimos anos, o número de mulheres com oportunidade de realizar filmes tem vindo a crescer.
Assim, com o intuito de dar visibilidade ao cinema feito por mulheres, mapeei e destaco as obras programadas pelo Doclisboa 2025 — filmes que abordam questões urgentes da atualidade, sejam elas femininas e feministas, migratórias, diaspóricas, pós-coloniais, ambientais, políticas ou ligadas a regimes autoritários, bem como reflexões artísticas que conectam passado, presente e futuro.
Dia 16, quinta-feira
Na Culturgest às 10h30 (ou dia 18 às 14h no Cinema São Jorge, Sala 3).
The Vanishing Point, 2025, de Bani Khoshnoudi, Irão, EUA, França, 104’. Estreia portuguesa.
Casas abandonadas, objectos sobreviventes que carregam memórias. Exilada do Irão após o seu filme sobre o Movimento Verde de 2009 ter sido proibido, uma cineasta quebra o silêncio de décadas da família sobre um primo que desapareceu e foi executado durante as purgas de 1988 nas prisões políticas do Irão. Lutando contra o distanciamento e a perda, usa fragmentos, arquivos e imagens captadas durante os anos em que filmou o quotidiano no Irão para reflectir sobre o tabu colectivo, o medo que silenciou a população durante tantos anos e a crescente onda de resistência dentro da sociedade iraniana.
Na Culturgest às 19h: An Oscillating Shadow / Una sombra oscilante, 2024, de Celeste Rojas Mugica, Argentina, Chile, França, 77’.
A cineasta e fotógrafa debruça-se sobre o arquivo fotográfico do pai, que também foi fotógrafo durante os seus anos de activismo militante contra a ditadura no Chile e no exílio pela América Latina. Ao explorar essas imagens, tenta relacionar-se com o pai através de um jogo. Analisa de que forma o peso íntimo e político das imagens pode abrir espaços de reflexão sobre elas enquanto actos de resistência — seja porque foram feitas apesar do horror do contexto, seja porque oferecem um ponto de fuga imaginário capaz de libertar-nos.
No Cinema Ideal, dia 16 às 19h45 (ou dia 20.10 às 21h45 no Cinema São Jorge – Sala M. Oliveira).
Boy George & Culture Club, 2025, de Alison Ellwood, Reino Unido, EUA, 96’.
Retrato íntimo da ascensão meteórica de uma banda à fama, da sua separação dramática e da notável reunião para este filme. Pela primeira vez, Boy George, Roy Hay, Mikey Craig e Jon Moss juntam-se para partilhar a sua história completa, oferecendo uma perspectiva sobre o processo criativo e as relações pessoais. Tendo como pano de fundo a Grã-Bretanha dos anos 1980, o filme explora como quatro jovens formaram uma banda sexualmente livre, cujo estilo e som desafiaram o status quo durante a era do New Romantic e de Margaret Thatcher. Um olhar terno, caótico e divertido sobre um quarteto singular.
Dia 17, sexta-feira
Na Culturgest às 10h30 (ou dia 18 às 14h). Sessão de curtas:
Sunny 16 Helsinki, 2024, de Ève Le Fessant Coussonneau, França, Finlândia, 7’. Estreia portuguesa.
Em Sunny 16 Helsinki, a inocência do verão na fronteira entre a Finlândia e a Rússia é ensombrada pelo medo de um desastre iminente.
Memory Is an Animal, It Barks with Many Mouths, 2025, de Eva Giolo, Bélgica, 24’. Estreia portuguesa.
Em Memory Is an Animal, It Barks with Many Mouths, crianças reinventam antigas lendas ladinas enquanto exploram água, buracos e cavernas, em busca de algo esquecido.
Wishful Filming, 2025, de Sarah Vanagt, Bélgica, 37’. Estreia mundial.
Wishful Filming percorre Bruxelas e encontra trabalhadores migrantes. Eles inserem pedaços de papel nas colunas e pisos de edifícios em construção — desejos secretos destinados às gerações futuras.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 11h (ou na mesma sala, dia 24.10 às 19h45):
The Long Road to the Director’s Chair, 2025, de Vibeke Løkkeberg, Noruega, 70’. Estreia portuguesa.
O Primeiro Seminário Internacional de Cinema Feminino, organizado por Claudia von Alemann e Helke Sander em 1973, é considerado um dos primeiros festivais de cinema feminista. A realizadora norueguesa e antiga actriz Vibeke Løkkeberg participou no evento, levando uma equipa de filmagem para documentar esse momento crucial. Descoberto quase 50 anos depois, o material esquecido revela um tesouro de histórias que registam as lutas, ambições e sonhos de mulheres a entrar numa indústria dominada por homens.
Na Culturgest às 19h:
Fuck the Polis, 2025, de Rita Azevedo Gomes, Portugal, 74’. Estreia portuguesa.
A notícia de uma doença fatal leva Irma à Grécia, terra da claridade, onde embarca numa viagem ditada pelo deus Apolo e guiada por locais sagrados. Vinte anos depois, Irma revive essa peregrinação apolínea. Baseado num conto de João Miguel Fernandes Jorge — inspirado num relato pessoal dessa viagem — e na experiência da própria realizadora, Fuck the Polis conduz-nos pelas ilhas gregas, entre vozes e mares, pedras e danças, ventos e templos, ruínas e deuses corroídos.
No Cinema São Jorge – Sala M. Oliveira, às 19h (ou no Cinema Ideal dia 21.10 às 19h45 ou na Culturgest dia 26.10 às 15h):
It’s Never Over, Jeff Buckley, 2025, de Amy Berg, EUA, 106’.
Jeff Buckley, estrela em ascensão com uma voz sobrenatural, deixou o mundo da música dos anos 1990 em choque ao morrer subitamente após o lançamento do seu álbum de estreia, Grace. Num acidente trágico, afogou-se no rio Wolf, em Memphis, em 1997, deixando para trás um segundo álbum inacabado e uma legião de familiares, amigos e fãs devastados. Com imagens inéditas e relatos íntimos das pessoas mais próximas, Amy Berg constrói um retrato elucidativo e comovente de uma das figuras mais enigmáticas e influentes da música moderna.
No Cinema Ideal às 19h45:
Shuruuk, 2024, de Amie Barouh, França, Alemanha, 37’.
Significando “erguer-se no Oriente”, Shuruuk é uma viagem onírica e diarística do Japão à Tunísia e da Palestina a França. A câmara íntima e itinerante de Amie Barouh testemunha o fluxo da vida e o movimento do Oriente para o Ocidente. Cinco anos de documentação unem-se num retrato impressionista e profundamente honesto das comunidades diaspóricas e imigrantes — uma ode à resiliência de quem vive no exílio.
Back Home so Late / Volver a casa tan tarde, 2025, de Celia Viada Caso, Espanha, 70’.
A escritora María Luisa Elío regressou a Espanha em 1970, após três décadas de exílio no México. Queria restabelecer a ligação com um passado que talvez já não existisse. A realizadora explora fragmentos da vida dessa mulher que integrou os movimentos artísticos de vanguarda mais importantes de meados do século XX. Amiga de Alejo Carpentier, Luis Buñuel e Gabriel García Márquez — que lhe dedicou Cem Anos de Solidão — Elío escreveu e interpretou En el balcón vacío, um filme sobre as suas próprias feridas.
No Cinema Ideal às 21h45:
When Lightning Flashes Over the Sea, 2025, de Eva Neymann, Alemanha, Ucrânia, 125’.
(ou no Cinema São Jorge, Sala 3, dia 19.10 às 11h00, ou na Culturgest dia 26.10 às 16h15)
Gatos de rua, ilhas de luz, aventuras amorosas, perdas e conscrições. Eva Neymann retrata o povo de Odessa — e os seus gatos — com delicadeza, procurando revelar os seus sonhos num tempo em que a guerra destruiu todas as certezas. A cineasta ucraniana, que estreou Pryvoz na Competição Internacional do Doclisboa 2021, filmou todos os seus projetos em Odessa desde os tempos de estudante e conhece bem os segredos da cidade. Este filme, pleno de memórias e sonhos, inspira-se na beleza surreal de Ten Nights of Dreams, de Natsume Sōseki — um raro gesto de humanismo num momento trágico da história do país.
Na Culturgest às 21h45:
Moraine, 2025, de Camille Llobet, França, 13’. (ou dia 26.10 às 16h15)
Sarah e Laurent, guias de alta montanha, percorrem as moreias do Mer de Glace [Mar de Gelo] sem objetivo claro. Baptizada por um explorador britânico no final do século XIX por recordar “um lago agitado por uma brisa forte e subitamente congelado”, esta paisagem é agora um vazio aberto, marcado pela ausência da massa de gelo, transformado num anfiteatro de detritos. As moreias — rochas arrastadas pelo movimento glaciar — são terreno instável. Onde um caminhante inexperiente tropeçaria, Sarah e Laurent dançam com o vazio, entre a verticalidade e o perigo.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 22h:
The Memory of Butterflies / La memoria de las mariposas, 2025, de Tatiana Fuentes Sadowski, Peru, Portugal, 78’. Estreia portuguesa.
As histórias esquecidas de dois indígenas, Omarino e Aredomi, emergem das sombras do ciclo da borracha, numa viagem sensorial que entrelaça a história pessoal da realizadora com arquivos da Amazónia do início do século XX. O filme é um ritual cinematográfico que explora os limites da pesquisa e da especulação, refletindo sobre poder, memória, reparação e o diálogo profundo entre vivos e mortos. Utilizando imagens em super 8 mm processadas manualmente, propõe uma história alternativa do projeto colonial.
Dia 18, sábado
Na Culturgest às 10h30 (ou no Cinema Ideal, dia 21.10 às 21h10):
The Blue Line / La Ligne bleue, 2025, de Marie Dumora, França, 127’. Estreia internacional.
Na aldeia de Natzwiller, na Alsácia, um pequeno grupo de moradores vivia em paz até que os nazis chegaram e construíram um campo de concentração numa zona conhecida como Le Struthof. Cada casa tem uma história para contar. Este filme traça uma topografia do lugar e uma cartografia de memórias, a partir da perspectiva dos últimos habitantes que testemunharam o caos. “Não queria fazer um filme histórico, mas antes tentar materializar a história, trazê-la até nós pelo prisma das memórias — necessariamente subjectivas — de quem a viveu. Havia grande urgência em registá-las”, explica Marie Dumora.
Na Culturgest às 15h (ou no Cinema São Jorge, Sala 3, dia 20 às 11h30):
Ouro e Cinza / Gold and Ashes, 2024, de Salomé Lamas, Portugal, 77’. Estreia mundial.
O nosso primeiro objecto de investigação e cuidado deve ser a vida. Sabemos porquê: somos seres vivos num mundo em que as condições de vida estão em perigo. O que falta neste discurso ecológico é a morte. A dificuldade em reconhecê-la não é nova, mas, na contemporaneidade, assume um novo rosto. Ouro e Cinza ultrapassa a representação para se tornar num acto íntimo de escavação que procura mediar, material, política e metafisicamente, a reapropriação da morte como poder — e a nossa soberania enquanto seres mortais, tanto nas esferas privadas como nas sociais.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 16h45 (ou na Culturgest, dia 19 às 13h45):
Tell Me a Fairy Tale / Ji min re çîrokek beje, 2025, de Ebrû Avci, Turquia, 37’. Estreia mundial.
Yusuf viaja por aldeias curdas recolhendo contos populares em vias de desaparecimento, com o objectivo de os publicar num livro. O filme acompanha essa viagem. Assistimos à sua ligação com mulheres, idosos e crianças curdas e às pressões familiares, tabus sociais e dificuldades financeiras que enfrenta. Apesar de tudo, continua — mesmo quando tem vontade de desistir.
B for Bartleby / B wie Bartleby, 2025, de Angela Summereder, Áustria, 72’. Estreia mundial.
O conto de Herman Melville serve de ponto de partida. “Prefiro não”, a frase célebre de Bartleby, é o fio condutor desta montagem ensaística. O filme entrelaça sequências de History Lessons (1972), de Straub e Huillet, com diálogos entre Benedikt Zulauf — que participou na adaptação de Brecht — e a cineasta. B for Bartleby concretiza um desejo antigo do parceiro falecido de Summereder, então em estado terminal, e transforma-se numa reflexão sobre releitura e apropriação de material literário.
Na Culturgest às 18h30 (ou no Cinema Ideal, dia 22.10 às 21h45):
Memórias do Teatro da Cornucópia / Memoirs of Teatro da Cornucópia, 2025, de Solveig Nordlund, Portugal, 92’. Estreia mundial.
Símbolo maior do teatro interventivo português, o rasgo da Cornucópia surgiu na obscuridade fascista para enfrentar, no palco, a ditadura. Entre clássicos, nasce e morre um projecto, mas permanece um rosto emblemático: Luís Miguel Cintra, que partilhou a sua arte com a cumplicidade constante da cenógrafa Cristina Reis. Juntos, guiados por imagens, dão o seu testemunho e contam esta história de resistência e criação.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 19h30 (ou na Culturgest, dia 20 às 10h30):
Prefiro Condenar-me / I’d Rather Be Condemned, 2024, de Margarita Ledo Andión, Espanha, 88’. Estreia internacional.
Esta é a história de Sagrario, mariscadora da costa de Ferrol, e das suas mil faces. Apresenta-nos uma mãe distante, uma família em permanente turbulência e um julgamento por adultério, motivado pela filha que teve com o amante — um carpinteiro “que valia a pena amar”. Enquanto o desejo feminino era controlado e oprimido durante a ditadura, aqui é retratado através de um olhar delicado e crítico sobre uma sociedade de classes que não tolerava a desobediência de Sagrario. Este é o último filme de Margarita Ledo Andión, uma das vozes mais importantes da Galiza, ainda pouco conhecida em Portugal.
No Cinema São Jorge às 21h45 (ou no Cinema Ideal, dia 20.10 às 21h45):
Bulakna, 2025, de Leonor Noivo, Portugal, França, Filipinas, 93’. Estreia portuguesa.
Bulakna evoca o nome de uma antiga guerreira filipina que resistiu à invasão colonial. Retrato de força e desigualdade, o filme acompanha mulheres filipinas que hoje enfrentam uma nova forma de colonização: a migração forçada pelo trabalho. Milhares de filipinas trabalham como empregadas domésticas e cuidadoras em países estrangeiros, sustentando economias alheias enquanto deixam as suas famílias para trás, em suspenso, na terra natal. Presas a uma lógica global que transforma o cuidado em moeda de troca, vivem divididas entre o sustento e a saudade, entre o dever e a ausência.
Dia 19, domingo
Na Culturgest às 10h30 (ou dia 25.10 às 19h):
We Had Fun Yesterday, 2024, de Marion Guillard, Bélgica, 35’. Estreia portuguesa.
A curta-metragem explora o fascínio da realizadora por imagens da natureza. Filmes sobre vida selvagem, parques naturais e jardins zoológicos são colocados em movimento a partir da sua experiência pessoal como cineasta, artista visual, ornitóloga e mulher.
The Tree of Authenticity / L’Arbre de l’authenticité, 2025, de Sammy Baloji, Bélgica, República Democrática do Congo, 89’. Estreia portuguesa.
Um ensaio cinematográfico que mergulha na história colonial da República Democrática do Congo e nas suas implicações ecológicas, destacando o papel vital da Bacia do Congo na absorção de dióxido de carbono e na formação do equilíbrio ambiental global ao longo de um século.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 11h:
When Lightning Flashes Over the Sea, 2025, de Eva Neymann, Alemanha, Ucrânia, 125’. Estreia portuguesa.
Gatos de rua, ilhas de luz, aventuras amorosas, perdas e conscrições. Eva Neymann retrata o povo de Odessa — e os seus gatos — com uma delicadeza que procura revelar os sonhos de quem vive quando a guerra destrói todas as certezas. A cineasta ucraniana, que estreou Pryvoz na Competição Internacional do Doclisboa 2021, rodou todos os seus filmes em Odessa desde os tempos de estudante, conhecendo a cidade como poucos. Este filme, repleto de memórias e visões, inspira-se na beleza surreal de Ten Nights of Dreams, de Natsume Sōseki. Um raro gesto de humanismo num momento trágico da história do país.
Na Culturgest às 18h30 (ou na mesma sala dia 21.10 às 10h30):
Bull’s Heart / I kardia tou tavrou, 2025, de Eva Stefani, Grécia, 79’. Estreia internacional.
O célebre encenador e coreógrafo Dimitris Papaioannou e a sua equipa preparam Transverse Orientation, uma performance inspirada no mito do Minotauro. Usando a luz como guia, a obra transcende estruturas narrativas lineares e questiona hierarquias, identidade e comunicação. Desde a estreia, em 2021, percorreu três continentes, vinte países e trinta e uma cidades. O filme centra-se numa questão essencial — “Porque fazemos o que fazemos?” —, mostrando a arte como acto de resistência à efemeridade da vida e como forma de lhe dar sentido.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 19h30 (ou na mesma sala, dia 22.10 às 14h):
Vacances, 2025, de Victoria Hely-Hutchinson, França, EUA, 82’. Estreia mundial.
Ao longo de uma década, numa vivenda ensolarada na Provença, Vacances acompanha a “Avó”, uma condessa boémia austro-húngara, enquanto ela transmite sabedoria à beira da piscina e procura um sucessor entre os descendentes. Vestidos de fato de banho, os membros mais jovens da família percorrem o seu mundo complexo, ora rendendo-se ao seu olhar severo, ora resistindo aos seus conselhos. À medida que os verões passam e a influência da avó se desvanece, os herdeiros reavaliam os seus ensinamentos, distinguindo o que é valioso do que é opressivo — e preparando-se para deixar a vivenda.
No Cinema Ideal às 19h10 (ou na Culturgest dia 26.10 às 10h30):
Do You Love Me, 2025, de Lana Daher, França, Líbano, Alemanha, Catar, 76’.
Uma viagem divertida e pessoal pela memória audiovisual do Líbano, composta inteiramente por imagens de arquivo. É uma carta de amor a Beirute que atravessa 70 anos de cinema, televisão, vídeos caseiros e fotografia, explorando a psique coletiva libanesa — feita de alegria e intimidade, destruição e perda. Pelos olhos de cidadãos, cineastas e artistas, o filme reconstrói uma história fragmentada de um país sem arquivo nacional, celebrando a expressão criativa como forma de resistência, renovação e preservação da memória.
Na Culturgest às 21h45 (ou no Cinema São Jorge, Sala 3, às 16h30):
Love on the Bramble Path / L’Amour sur le chemin des roncettes, 2025, de Sophie Roger, França, 25’. Estreia internacional.
Uma viagem romântica por uma estrada secundária. Uma exploração que se prolonga por vários anos e cobre uma área de apenas um quilómetro de diâmetro. Da sua cabana ao “jardim dos arbustos”, a realizadora dialoga com os seres que encontra — mulheres, animais, flores, árvores e livros convivem num percurso simultaneamente sensual e mental. O burlesco é excêntrico, o tempo é suspenso. Um filme construído a partir de arquivos pessoais, onde os sedimentos do desejo se entrelaçam num contínuo de descobertas.
Us & Them, 2025, Anónimo, 54’. Estreia mundial.
Em Us & Them, o mundo está virado de cabeça para baixo. Aparentemente, a cidade dorme em paz, mas há uma voz subterrânea que murmura inquietação sob a superfície.
Dois filmes onde o corpo e as mãos iniciam um movimento através do qual se pode ler o mundo. Sophie Roger reúne arquivos pessoais, materiais e experiências de diferentes épocas para explorar as possibilidades oferecidas pelo ambiente circundante. O que acontece a ela — e a todos os seres — quando se renova o jogo e o desejo? “Tantas maravilhas na resistência”, diz a realizadora.
Dia 20, segunda-feira
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 16h30:
Where Russia Ends / Tam, de Zakinchuietsia Rosiya, 2024, de Oleksiy Radynski, Ucrânia, 26’. Estreia portuguesa.
All Roads Lead to You / Usi dorogi privodiat do tebe, 2025, de Jenya Milyukos, Ucrânia, Portugal, 79’. Estreia portuguesa.
Duas reflexões profundas sobre o imperialismo russo e a máquina colonial que culminaram na invasão da Ucrânia. Where Russia Ends é um ensaio que questiona a opressão dos povos indígenas nas colónias, construído a partir de filmes produzidos por um estúdio ucraniano especializado em cinema científico e de animação durante o período soviético — agora redescobertos. All Roads Lead to You é o relato íntimo dos onze anos de deslocamento da realizadora e da sua busca por um caminho de regresso à Crimeia ocupada. A cineasta tenta responder a uma pergunta que persegue toda uma geração: o que é o lar, quando se perdeu em 2014?
Na Culturgest às 16h45 (ou no Cinema São Jorge, Sala 3, dia 23.10 às 19h45):
1073 Saenz Avenue / Avenida Saenz 1073, 2025, de Lucía Seles, Argentina, 67’. Estreia europeia.
“Uma das pessoas que aparece no final do filme The Urgency of Death visita a casa onde viveu quando era criança e fala sobre as coisas que destruíram o seu pai”, explica Lucía Seles. Conhecida por criar personagens e situações de uma inocência comovente, a realizadora adota aqui uma estrutura documental para refletir sobre os laços familiares. Com uma linguagem obsessiva e lúdica, que abre abismos temporais e emocionais, este filme tocante sobre um pai (e uma irmã) revela uma nova e vibrante gramática cinematográfica.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 19h30:
Fantasy / Fantaisie, 2025, de Isabel Pagliai, França, 80’. Estreia internacional.
Perdida entre medos e fantasias, uma rapariga escreve num caderno. Um rapaz encontra o caderno num comboio. Subitamente, ambos dão por si numa floresta — uma realidade nocturna onde os sonhos ganham corpo. A palavra francesa fantaisie contém um mundo inteiro: é sinónimo de imaginação, mas também guarda dentro de si as palavras “fantasma” e “fantasia”. Este filme noturno é uma reminiscência de uma fantasia musical escrita de uma só vez — um sonho documental moldado pelo inconsciente, que explora a emoção pura, o desejo e a natureza metafísica do amor.
Dia 21, terça-feira
Na Culturgest às 21h30 (ou no Cinema São Jorge, dia 22.10 às 11h30):
Estava Escuro na Barriga do Lobo / It Was Dark Inside the Wolf, 2025, de Joana Botelho, Portugal, 30’. Estreia mundial.
Sessão seguida da performance de Sara Carinhas.
Última Memória, peça de Sara Carinhas, estreou no Teatro São Luiz em Março de 2023. Estava Escuro na Barriga do Lobo não é um making of dessa criação, mas uma incursão de Joana Botelho pelas dúvidas e errâncias de Sara no percurso até às cortinas se abrirem. Na sessão especial do Doclisboa, realizadora e encenadora encontram-se entre o ecrã e o corpo ao vivo da atriz, numa dramaturgia que faz coexistir o filme e curtas cenas do espetáculo — momentos que o público comum nunca chega a ver.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 21h45 (ou dia 26.10 às 11h30):
Sorella di Clausura, 2025, de Ivana Mladenovic, Roménia, Sérvia, Itália, Espanha, 107’. Estreia portuguesa.
Stela, mulher de 36 anos e formação superior, é incapaz de manter um emprego. Desde criança, é apaixonada por um músico sérvio da antiga Jugoslávia, uma superestrela dos Balcãs. Vera, uma aspirante a cantora, promete ajudá-la a conhecer o ídolo, resgatá-la da sua vida rural empobrecida e levá-la para Bucareste, onde vende produtos sexuais e lubrificantes. A história decorre no final da euforia que antecedeu a crise financeira, quando a Roménia acabara de entrar na União Europeia e abundavam o crédito e o dinheiro fácil — e durante a recessão que se seguiu, quando os sonhos se desmoronaram.
No Cinema São Jorge, Sala M. Oliveira, às 22h (ou na Sala 3, dia 26.10 às 19h):
In Hell with Ivo, 2025, de Kristina Nikolova, Bulgária, EUA, 81’. Estreia portuguesa.
Oriundo da Bulgária, um país conservador onde quase ninguém é abertamente homossexual, surge o artista e músico extravagante Ivo Dimchev. Apesar do sucesso em toda a Europa, Ivo sente-se compelido a permanecer no seu país, onde é julgado e incompreendido. Seropositivo, atuou em casas de pessoas mais de 400 vezes durante a pandemia de COVID-19, arriscando a vida como um cordeiro sacrificial perante um público que o consome. Rejeitado pela família, abre-nos as portas da sua vida, mostrando sem pudor o seu narcisismo, a dependência sexual e a sua natureza conflituosa — um retrato cru e íntimo de vulnerabilidade e resistência.
Dia 22, quarta-feira
No Cinema São Jorge, Sala M. Oliveira, às 15h30 — Sessão de curtas:
O Fantasma da Virgem / The Phantom of the Virgin, 2024, de Patricia Pereyra, Portugal, 15’. Estreia mundial.
Em Bolonha, há um conjunto de igrejas que, antes de serem cristãs, foram templos pagãos dedicados a Ísis. No Porto, enquanto restaura uma estátua da Virgem Maria, uma estudante reflecte sobre as suas origens, entrelaçando o visível e o invisível, o sagrado e o terreno.
Conversations and Dreams, 2024, de Melanya Hamasyan, República Checa, Arménia, 20’. Estreia internacional.
Após sonhar com a morte do pai, uma jovem começa a habitar as paisagens conturbadas dos sonhos e das memórias dele, revelando medos que espelham os seus próprios. Um mergulho nas heranças emocionais que moldam o inconsciente e o despertar.
P.S.: Há duas curtas realizadas por homens a serem exibidas antes destes dois filmes, e outra em co-realização mulher/homem após.
Na Culturgest às 18h45 (ou na mesma sala dia 24.10 às 13h30, ou 25.10 às 10h30):
East of Noon / Sharq 12, 2024, de Hala Elkoussy, Países Baixos, Egipto, Catar, 109’. Estreia portuguesa.
Num mundo confinado e fora do tempo, Abdo, um prodígio de 19 anos, usa a música para se rebelar contra os anciãos: Shawky, um artista excêntrico de 70 anos que governa com performance e medo, e Jalala, uma contadora de histórias de 75 anos que consola com narrativas sobre um mar que ninguém mais viu. A segunda longa-metragem de Hala Elkoussy é uma sátira mordaz sobre o funcionamento interno de uma autocracia em declínio e a sua vulnerabilidade perante o olhar livre e criativo da juventude.
No Cinema São Jorge, Sala M. Oliveira, às 21h (ou Sala 3, dia 24.10 às 14h):
Explode São Paulo, Gil / Gil, Let’s Explode São Paulo, 2025, de Maria Clara Escobar, Brasil, Portugal, 98’. Estreia europeia.
Gil, de 50 anos, sempre quis ser cantora. Mudou-se para São Paulo aos 20, com a esposa, para realizar esse sonho. Desde então, trabalha como empregada de limpeza. Maria Clara propõe fazer um filme sobre ela. Gil torna-se famosa e, juntas, explodem duas cidades — São Paulo e o próprio imaginário de ambas — enquanto reflectem sobre sonhos, trabalho, invisibilidade e esquecimento.
Dia 23, quinta-feira
No Cinema São Jorge, Sala M. Oliveira, às 15h30 — Sessão de curtas:
To Sit On Watch / Ansitzen, 2025, de Franca Pape, Alemanha, 6’. Estreia internacional.
Alguém espera numa sala. O som do vento dá gradualmente lugar aos gritos dos activistas antiaborto. Maria e Jesus choram. Um filme sobre a espera, o aborto, a vergonha e o cinema como forma de resistência — breve, intenso e de uma serenidade inquietante.
I Lit the Fire! / Men ottu kuyguzdum!, 2025, de Valeria Lemeshevskaya, Quirguistão, Bielorrússia, Azerbaijão, 61’. Estreia mundial.
O filme junta duas pessoas: uma cineasta imigrante da Bielorrússia e uma menina de dez anos de uma aldeia no sul do Quirguistão. Através dos fragmentos das suas vidas, descobrem ligações invisíveis que aproximam os seus medos, esperanças e saudades de casa.
P.S.: Há também duas curtas realizadas por homens a serem exibidas nesta sessão.
Na Culturgest às 18h45:
Cactus Flower / Zahret al sabar, 2017, de Hala Elkoussy, Egipto, Catar, EUA, Noruega, 103’. Estreia portuguesa.
Aida, actriz de 33 anos proveniente do interior e em dificuldades, encontra-se desalojada nas ruas do Cairo, ao lado da vizinha Samiha, uma burguesa solitária de 70 anos. Sem dinheiro nem destino, as duas mulheres, ajudadas por Yassin, um jovem conhecedor das ruas, partem em busca de abrigo. Entre os percursos banais — e por vezes desastrosos — dessa jornada, desenvolvem-se trajectos paralelos de autodescoberta. Uma amizade improvável floresce entre o trio, delicada como uma flor que brota de um cacto espinhoso.
No Cinema São Jorge, Sala M. Oliveira, às 19h (ou no Cinema IDEAL, dia 24.10 às 21h45):
As Estações / The Seasons, 2025, de Maureen Fazendeiro, Portugal, França, Espanha, Áustria, 83’. Estreia portuguesa.
Combinando depoimentos de trabalhadores rurais, notas de campo de um casal de arqueólogos, imagens de arquivo amador, desenhos científicos, lendas, poemas e canções, As Estações percorre a história real e imaginada do Alentejo e dos povos que o habitaram. “Um filme arqueológico que escava a paisagem, as vozes e os gestos do povo alentejano para revelar os vestígios de uma história comum de guerras e revoluções, medo e resistência, permanência e metamorfose”, descreve a realizadora.
No Cinema São Jorge, Sala 3, às 22h (ou no Cinema IDEAL, dia 25.10 às 21h45):
Toni, My Father / Toni, mio padre, 2025, de Anna Negri, Itália, 110’. Estreia internacional.
Anna tinha 14 anos quando o pai, Toni Negri, foi preso, acusado de ser o cérebro por trás das Brigadas Vermelhas — o grupo que simbolizou o terrorismo de esquerda em Itália. Após quatro anos de prisão e quinze de exílio, Toni tornou-se um filósofo de renome mundial, mas a detenção deixou marcas profundas na filha. Este filme é uma tentativa de compreender a mentalidade revolucionária que moldou o século XX e de questionar a ética da violência e a forma como os indivíduos lidam com a derrota. Um encontro entre a memória pessoal e a História, entre amor e ideologia.
Dia 24, sexta-feira
No Cinema São Jorge, Sala M. Oliveira, às 15h30 — Sessão de curtas:
Seablindness, 2025, de Tereza Smetanová, Eslováquia, 30’. Estreia mundial.
Noventa por cento do que consumimos chega-nos por mar. O capital concentra-se nos portos, onde a terra e o oceano se tocam. Sem navios, os sonhos secam. A realizadora questiona se alguém que é “cego em relação ao mar” conseguirá imaginar um mundo diferente — uma reflexão poética sobre comércio, ecologia e invisibilidade.
Daddy, Komplex, 2025, de Mireya de Jahnsen, Alemanha, Reino Unido, 18’. Estreia mundial.
Na Grécia, Pina e Ola partem para umas férias em busca de aventura. Quando o seu vínculo é posto à prova pelo “complexo paterno”, tudo vacila — e as irmãs têm de enfrentar uma questão impossível: será o perdão possível?
Manuscript for Debris, 2024, de Danielle Kaganov, França, 10’. Estreia internacional.
Uma imersão em momentos híbridos que cruzam práticas militares, treino animal e realidade virtual. O filme cria um ambiente surreal onde a simulação e a vigilância nos afastam do mundo visceral. Como altera a mediação constante a nossa percepção do real?
P.S.: Há também duas curtas realizadas por homens a integrar esta sessão.
No Cinema São Jorge, Sala M. Oliveira, às 19h:
Landmarks / Nuestra Tierra, 2025, de Lucrecia Martel, Argentina, EUA, México, França, Países Baixos, Dinamarca, 119’. Estreia portuguesa.
Em 2009, um homem e dois cúmplices tentam expulsar membros da comunidade indígena Chuschagasta, na Argentina. Alegando ser donos da terra, assassinam o líder da aldeia. O crime é filmado. São necessários nove anos de protestos até o processo judicial ser aberto, em 2018 — durante todo esse tempo, os assassinos permanecem em liberdade. Martel conjuga vozes, fotografias e imagens de tribunal para explorar a história da expropriação de terras e da violência colonial que persiste até hoje. A primeira longa da cineasta em oito anos é uma obra rigorosa e luminosa sobre resistência e justiça.
No Cinema IDEAL, às 19h45 (ou na Culturgest, dia 26.10 às 18h30):
Barking in the Dark, 2025, de Marie Losier, França, 42’.
Uma viagem ao universo excêntrico e secreto dos The Residents, ícones da vanguarda musical americana há mais de cinquenta anos. Escondido por detrás do anonimato e de máscaras icónicas, este colectivo de culto reinventou a cena underground com a sua experimentação sonora e visual. Losier constrói um retrato divertido e íntimo que celebra a liberdade radical de um grupo que nunca seguiu regras — um hino à arte que recusa explicações.
Dia 25, sábado
Programa dedicado às reprises de filmes exibidos nos dias anteriores, com horários e locais indicados em cada ficha respectiva.
Dia 26, domingo
Último dia do festival.
Sessões de repetição de filmes exibidos nos dias anteriores, conforme os horários indicados em cada título.
As exibições concentram-se na Culturgest, no Cinema São Jorge e no Cinema IDEAL, encerrando o Doclisboa 2025 com uma selecção de títulos fundamentais da edição.
P.S.: Há seis longas e uma curta-metragem em correalização de mulheres e homens incluídas na programação, e por isso não foram destacadas aqui.
Para informações sobre o festival consulta o site oficial do Doclisboa.
Boas sessões — há muitos bons filmes à tua espera.

