Anfíbia, posicionada entre o real documental e os contos morais, a obra do cineasta bielorrusso criado em Kiev Sergei Loznitsa constrói-se sobre uma filosofia de base económica — a julgar pelo modo de execução de Two Prosecutors, lançado na corrida à Palma de Ouro, em maio. O filme tem sessão esta sexta-feira no Festival do Rio, onde será exibido com o título Dois Procuradores, no Estação NET Gávea 4, às 16h30.
Na próxima semana, o festival prolonga-se com uma fase extra, intitulada Repescagem — uma referência ao jargão futebolístico popular no Brasil —, que decorrerá até quarta-feira. O novo filme de Loznitsa integra também essa programação, com nova projeção marcada para as 19h do dia 13, no Estação NET Botafogo.
“A única diferença entre um documentário e uma ficção é o orçamento”, afirmou Loznitsa na conferência de imprensa de Cannes, ao apresentar a sua mais recente reconstituição histórica.
Respeitado na Croisette por Na Neblina (Prémio da Crítica em Cannes, 2012) e Donbass (Prémio Un Certain Regard de Melhor Realização, 2018), o cineasta volta a realizar uma autópsia do totalitarismo no kafkiano Two Prosecutors, que coloca a URSS de Josef Stalin sob escrutínio. A narrativa decorre entre gabinetes e vagões de comboio, acompanhando o pedido de investigação de maus-tratos num centro de detenção afastado de Moscovo, apresentado por um jovem procurador, Kornev (interpretado por Aleksandr Kuznetsov, num registo de exuberância contida). Reciém-nomeado na Rússia soviética de 1937, Kornev vê cada passo rumo à verdade tropeçar na burocracia, enquanto tenta mobilizar um colega no coração da capital.
“É uma abordagem claustrofóbica num ambiente deprimente. Há duas pessoas, dois eixos e há o grotesco”, disse Loznitsa.
Na primeira metade de Two Prosecutors, Kornev encontra um colega que foi encarcerado e torturado por um Estado que silencia as vozes dissidentes. “Construí o filme pelos olhos de Kuznetsov”, explicou o realizador, que estudava Cálculo, Geometria e Trigonometria quando a URSS chegou ao fim. Na altura, decidiu aplicar o seu olhar de algebrista ao cinema, iniciando a carreira no final dos anos 1990 com curtas-metragens.
Quando Two Prosecutors foi anunciado na seleção oficial de Cannes, Loznitsa estava em exibição no Brasil, no festival É Tudo Verdade, com A Invasão (The Invasion). Na transição entre a conclusão desse documentário e o início da sua atual ficção, o realizador explicou ao C7: “Faço cinema para combater clichés, entre eles o da soberania e o da redenção. No discurso cinematográfico, não existe tempo como matéria palpável, nem apenas como abstração: o tempo, em termos práticos de realização, é uma ilusão que não se remete apenas ao passado, mas a toda a perceção das instâncias que nos cercam — entre elas, as do Poder. Nem presente nem futuro são bens materiais, como o cinema comercial menos reflexivo faz parecer. Tudo é ilusão de uma projeção de pertença. A lucidez de um cineasta é saber identificar as estratégias de criação de controlo que estão por trás desse pensamento ilusório de consolidação de verdades.”
O Festival do Rio anuncia as produções vencedoras das suas mostras competitivas este domingo.

