Costa-Gavras: “Tudo é político” — o mestre franco-grego reflete sobre a morte em “O Último Suspiro”

(Fotos: Divulgação)

Aos 92 anos, o franco-grego Konstantinos Gavras, mais conhecido como Costa-Gavras, continua a filmar com uma lucidez impressionante, como se constata no seu mais recente filme, O Último Suspiro (Le Dernier Souffle).

Adaptação do livro homónimo de Claude Grange e Régis Debray, onde aborda um tema tão íntimo quanto universal, a finitude, Costa-Gavras apoiou-se em diversos pensadores (Camus, Heidegger, Jankélévitch e Edgar Morin) e na relação de Manoel de Oliveira com o tempo e a velhice, para nos oferecer uma obra que se afasta de uma das suas marcas autorais, o thriller, mas nunca da mensagem política. “Tudo é político”, disse-nos Costa-Gravas em Paris, no início do ano. “A política é o nosso comportamento na sociedade. A palavra vem de polis, a cidade. Cada gesto que torna outro ser humano mais feliz ou mais infeliz é um ato político. O filme fala disso— da dignidade, da liberdade de escolha, da responsabilidade de decidir sobre a própria morte”. 

Costa-Gavras

O Último Suspiro acompanha, em particular, o filósofo Fabrice Toussaint (Denis Podalydès), confrontado com uma doença grave, que estabelece um diálogo com o médico de cuidados paliativos Augustin Masset (Kad Merad) sobre o fim da vida.

O livro era quase um documentário. Tinha de encontrar a forma cinematográfica, porque o cinema tem regras próprias e o público tem expetativas”, explicou Costa-Gavras, justificando a criação da personagem do filósofo em fim de vida. “Era preciso um fio narrativo, uma estrutura e personagens que evoluíssem. No livro havia um médico e um escritor; eu transformei o escritor num filósofo, porque no cinema, perante a morte, tendemos mais a filosofar do que a narrar. Essa foi a minha linha condutora.

Ainda assim, para o cineasta, faltava algo essencial: o coração: “Quis criar uma espécie de coro grego — como nas tragédias antigas — que acompanha e aceita a morte com serenidade, quase com alegria, para não transmitir tristeza a quem parte. Inspirei-me na minha infância na Grécia, quando, nas aldeias, as pessoas se reuniam à volta do corpo, choravam, mas também riam, contavam histórias e partilhavam a vida.

Já nonagenário, Costa-Gavras não revela pudor em falar da morte, mas também não esconde o medo que todos temos dela — e dos fantasmas que carregamos em relação ao fim. “O medo é duplo. Por um lado, o medo pessoal — o medo de deixar de existir, de ver os outros continuarem enquanto nós já não estamos. É um medo egoísta, mas humano. Por outro lado, há o medo da forma como se morre. Podemos agonizar horas, dias, semanas, arrastados sem dignidade. E em França ainda não encontrámos uma solução justa, como na Suíça, na Bélgica ou nos Países Baixos. Foi por isso que escolhi este tema. Também me tocou o lado profundamente humano do assunto. Li muitos casos reais — histórias comoventes de pessoas e das suas famílias, que nem sempre aceitam a partida. Pensei também na minha própria família, e foi assim que decidi fazer o filme.”

Apenas com uma exibição programada na Festa do Cinema Francês, O Último Suspiro deverá chegar brevemente às salas de cinema comerciais em Portugal.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/yrmm

Últimas