Os cineastas bascos Aitor Arregi e José Mari Goenaga, membros da produtora Moriarti, têm deixado a sua marca no cinema espanhol e internacional, sobretudo após o sucesso de Loreak (2014), um delicado drama que lhes valeu a primeira nomeação basca aos Goya. Com Handia (2017), baseado na história real do “gigante de Altzo”, a dupla conquistou dez estatuetas nos Goya, seguindo-se La trinchera infinita (2019), sobre um homem que permaneceu escondido durante três décadas por receio do governo franquista. Distinguido no Festival de San Sebastián com a Concha de Prata, o filme consolidou Arregi e Goenaga como um dos duos essenciais do cinema de nuestros hermanos, prosseguindo depois a carreira com Marco, la verdad inventada (2024), onde exploraram a história de um homem que construiu para si um passado falso como sobrevivente de um campo de concentração nazi, ganhando reconhecimento público e simpatia.
Em 2025 regressam a Donostia com uma nova longa-metragem, Maspalomas. Depois de viver sem preocupações em Maspalomas, nas Canárias, como um homem homossexual assumido, Vicente, de 76 anos, rompe com o companheiro e regressa a San Sebastián. Aí reencontra-se com a filha (a quem abandonara anos antes) e acaba por ser forçado a ingressar num lar de idosos, onde a pressão social o leva a voltar a omitir a sua orientação sexual.

“A ideia nasceu em 2016, quando visitei Maspalomas e fiquei fascinado com aquele microcosmos. Mais tarde, li artigos sobre pessoas LGBTQ+ que, ao entrar em lares, voltavam ‘para o armário’, porque o ambiente era hostil”, disse o realizador José Mari Goenaga em San Sebastián, onde o filme concorre à Concha de Ouro. “Pareceu-me trágico: depois de uma vida inteira, regressar ao armário no fim. Era uma história que precisava de ser contada. E cada um tem, à sua maneira, o seu próprio armário.”
Construído como um drama intimista, o filme também aborda a sexualidade na velhice, um tabu que ainda subsiste na sociedade. “Existe a ideia de que, depois de certa idade, não há desejo. E quando se trata de homens, surge logo o estereótipo do ‘velho tarado’”, explica Goenaga. “Queríamos contrariar isso e abrir debate. A sexualidade não desaparece — transforma-se. Se o filme ajudar a naturalizar essa conversa, já valeu a pena.”
No protagonismo encontramos o ator José Ramón Soroiz, no papel de Vicente, que aos jornalistas em San Sebastián começou por revelar que levou dois meses a aceitar o papel: “Quando o José Mari me disse que queria que eu fosse o protagonista, pensei logo: ‘Não há outros atores?’. Eu disse-lhe: ‘Olha, sou disléxico, custa-me decorar, sou lento, e ainda por cima não gosto de conferências de imprensa, nem de televisão, nem de rádio.’ Mas ele insistiu: ‘Quero fazer este filme contigo.’ No dia seguinte, enviou-me o guião com uma nota a avisar que havia sequências de intimidade e sexo, mas que resolveríamos juntos, com o limite até onde eu quisesse. Li o guião e emocionei-me muito. Pensei: ‘Consigo fazer isto’.”
Confidenciando que pediu ao cineasta para encurtar as cenas de sexo, José Ramón Soroiz agradeceu à coordenadora de intimidade e à equipa o apoio recebido, percebendo que o processo era apenas mais uma coreografia, ensaiada e estudada:“No fundo, disse a mim mesmo: se vou aceitar, então faço como está no guião, senão não faz sentido. Trabalhei seis meses para me preparar — tanto fisicamente como emocionalmente. Foram os dois meses mais difíceis e também mais maravilhosos dos meus 50 anos de profissão. Foi um presente.”
Já a atriz Nagore Aranburu, que interpreta a filha de Vicente, explicou que no início do filme os dois não têm qualquer relação e que, por isso, a personagem leva o pai diretamente para um lar: “No guião havia muita dor acumulada, mas trabalhámos para que essa dor estivesse ‘resolvida’ no presente, para que o filme começasse a partir do cuidado — o peso de assumir um pai de quem está afastada. A partir daí, a relação vai evoluindo, com curiosidade em saber o que aconteceu. Foi especial trabalhar novamente com o José Ramón, tantos anos depois da minha estreia na televisão com ele.”
O Festival de San Sebastián termina a 27 de setembro.

