Ovacionado, ‘27 Noches’ abre Donostia para debater saúde mental

(Fotos: Divulgação)

Herdeiro de uma tradição conhecida como “um + um” nas análises de dramaturgia da indústria audiovisual — por tratar da transformação consecutiva de duas personagens —, 27 Noches abriu o 73.º Festival de San Sebastián sob forte ovação na sessão inaugural, em que o riso pontuou toda a projeção no Teatro Kursaal, epicentro do certame. A sintonia da narrativa com os movimentos que reivindicam a reforma das práticas psiquiátricas conferiu a esta comédia dramática um inegável peso político.

Foi a primeira exibição do filme e, por isso, saber que houve um aplauso tão intenso deixa-nos muito entusiasmados”, afirmou Daniel Hendler, realizador da obra, na conferência de imprensa que marcou a abertura do festival.

Com 27 Noches, José Luis Rebordinos, curador e diretor artístico de San Sebastián, assegura à seleção de estreias em competição pela Concha de Ouro uma entrada de tom agridoce. Na trama filmada por Hendler — ele próprio um ator de prestígio na América do Sul — a excêntrica aristocrata Martha Hoffman (Marilú Marini), figura da elite argentina, é internada numa clínica psiquiátrica pelas próprias filhas. Compete ao perito Casares (interpretado pelo próprio Hendler) apurar se a internação resulta de uma manobra das filhas para controlar a fortuna da mãe ou se, de facto, Martha sofre de uma forma de demência que coloca em risco o seu bem-estar e o da família.

Falar de saúde mental é também discutir as fronteiras da sanidade, incluindo os limites de quem cuida em relação a quem é cuidado”, sublinhou Hendler. “É preciso compreender os mecanismos que excluem pessoas e as remetem para a margem.”

Hendler é uruguaio, mas destacou-se a partir de Buenos Aires com O Abraço Partido, em 2004, e integrou o elenco de Cabeça a Prémio, de Marco Ricca, em 2009. A sua estreia como realizador de longas-metragens ocorreu há 15 anos: Norberto Apenas Tarde, de 2010, marcou esse passo. Traz ainda outro título a Donostia, na secção Horizontes Latinos: Un Cabo Suelto, já apresentado em Veneza no início do mês.

Em Norberto, um homem usava um disfarce para se libertar e ser quem era. Já Martha não precisa de disfarces. Ela sempre se mostra e assume quem é”, afirmou Hendler ao C7.

Além de 27 Noches, há mais duas longas argentinas em competição pela Concha de Ouro em 2025: o drama lacrimoso Belén (estreia na realização da atriz Dolores Fonzi) e Las Corrientes, de Milagros Mumenthaler, coproduzido com a Suíça. Esta presença robusta reforça a sintonia do Festival com o coro internacional em defesa de uma cinematografia que enfrenta tempos difíceis sob a presidência de Javier Milei, abertamente hostil ao sector cultural.

Estar na abertura de um festival como este é um sinal de quão importante é o cinema argentino no mundo, sobretudo na atual conjuntura do nosso país, com ataques à arte e com o desprezo do governo pela cultura, simbolizado pelo encerramento das linhas de financiamento público”, declarou ao C7nema Santiago Mitre, produtor de 27 Noches e conhecido sobretudo como realizador de sucessos como Argentina, 1985 (2022) e Paulina (2015).

O Festival de San Sebastián decorre até dia 27, quando o júri oficial, presidido este ano pelo cineasta espanhol J.A. Bayona, anunciará os vencedores.

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