Desaparecido do radar dos serviços de streaming, salvo ocasionais aparições piratas (não oficiais) no YouTube, Big Jato, de Cláudio Assis, completou dez anos desde a estreia e foi recuperado numa retrospectiva televisiva promovida pelo Canal Brasil – no país de onde retirou emprestado o nome – dedicada aos vencedores do Festival de Brasília. Dessa mostra fez parte outra joia de Assis, talvez a mais reluzente da sua carreira, que, por sorte, encontrou abrigo na Prime Video da Amazon: Piedade (2019). A pandemia prejudicou a sua estreia comercial, mas não lhe retirou frescura. Fernanda Montenegro reforçou o elenco de estrelas no currículo de Assis, que em 2002 abalou o cinema brasileiro com Amarelo Manga.
Na filmografia feroz deste realizador, há muito afastado das salas de cinema – e elevado à excelência com Baixio das Bestas, vencedor do Tiger Award em Roterdão, em 2007 – há espaço fértil para tubarões. O animal, mencionado repetidamente em Piedade, surge sempre associado à ganância e ao desajuste social. A sua fera mais faminta é Aurélio, executivo de uma petrolífera, que bebe whisky com o júbilo da ostentação. Essa máquina de matar é interpretada por Matheus Nachtergaele.
É pelo litoral de Piedade que Aurélio ataca: o título do filme remete a uma utopia praiana. O argumento dessa utopia, assinado por Anna Francisco, Dillner Gomes e Hilton Lacerda, oferece pérolas como: “E sexo cheira mal desde quando? Sexo é cheiroso”.
Na longa-metragem, essa praia com nome de sentimento é alvo do apetite da corporação para a qual Aurélio trabalha, reportando sempre as suas andanças (e corrupções) à mãe, a quem esconde a sua orientação sexual. Essa big mama, igualmente intolerante, é vivida por Denise Weinberg (estrela de O Último Azul), que não disfarça a homofobia quando suspeita que homens sem camisa frequentam o quarto do seu menino. Apesar das carapuças de que se esquiva, Aurélio veste com gosto, no plano profissional, a máscara de predador.
A sua presa preferida, tratada como iguaria, é o exibidor Sandro – papel que faz Cauã Reymond ascender, de uma vez por todas, aos altares do risco e da exuberância cénica. Se existe, em Piedade, um espaço de heroísmo, de virtude, ele pertence a Sandro, que gravita em torno do liberalismo do amor. A sua morada é um cinema pornográfico, onde reside a faceta mais autoral de Assis. Como definiu uma vez Nachtergaele, a sua obra é sobre “como trepamos mal e como amamos mal”. Aliás, raras vezes o sexo foi filmado com luz mais bela do que a fotografia de Marcelo Durst, que desenha o tom lírico da querência dos corpos de Assis.
Em Piedade, o sexo ferve em banho-maria: é intenso, mas marcado pela cumplicidade. Une Aurélio e Sandro numa beleza coroada pela hipocrisia de um e pela coragem do outro. Aurélio pode continuar a ser tubarão porque esconde o seu desejo, numa lógica submissa de homofobia e podridão moral. Sandro, pelo contrário, assume quem é, mesmo depois de ter sido expulso do lar adoptivo por isso. Mas não guarda mágoas. Ele é pura potência – tal como todo o legado cinematográfico de Cláudio Assis.

