“Gosto de fazer cinema sobre pessoas comuns” – Gianni Di Gregorio reflete sobre vida e cinema

(Fotos: Divulgação)

Aos 76 anos, Gianni Di Gregorio continua o seu percurso singular no cinema italiano através da execução de pequenos filmes, quase sempre protagonizados por si. Co-argumentista de Gomorra, ele estreou-se como realizador com Pranzo di Ferragosto (2008), vencedor do Leão do Futuro em Veneza.

Nesse pequeno filme, ele já delineava um universo de pequenos gestos, no qual a família surgia quer como fonte segura de afeto, mas também de responsabilidades que encurtavam o espaço do indivíduo. Seguiram-se títulos como Gianni e le donne (2011), Buoni a nulla (2014), Lontano lontano (2020) e Astolfo (2022), sempre protagonizados por si, eternamente confrontado com a passagem do tempo, o amor tardio e as exigências da convivência. 

Chegados a 2025, Come ti muovi, sbagli (Damned If You Do, Damned If You Don’t, 2025) retoma esse olhar compassivo sobre a velhice e os laços familiares, através da história de um homem cuja paz é interrompida quando a filha e os netos vêm viver consigo. Greta Scarano, Tom Wlaschiha, Anna Losano, Pietro Serpi e Iaia Forte fazem companhia a Gianni no elenco.

Foi a propósito da estreia deste filme na Giornate degli Autori do Festival de Veneza que tivemos a conversa que se segue.

Nos seus filmes regressa muitas vezes à questão do envelhecimento, à família, além de observar continuamente o relacionamento entre mulheres e homens. São temas que o fascinam?

Tem razão. Nesta altura da minha vida, pela idade que tenho, pensei que me restava ser avô com os netos, quase por obrigação cronológica. Mas depois pensei em tornar a minha personagem “mais pequena”, menos central, e concentrar-me nos outros — na filha, no marido dela, nos netos — para dar mais profundidade à história.

Continuo a acreditar que envelhecer não é assim tão grave quanto isso, pois o amor pode surgir em qualquer idade. Acredito profundamente nisso. É claro que aumenta o cansaço, torna-se mais difícil aguentar tudo, mas não acho que exista um momento em que se diga “basta”, que já não há possibilidade de se apaixonar ou de viver intensamente.

Também existe sempre um conflito entre aquilo que o indivíduo gostaria de fazer por si próprio e aquilo que a vida lhe impõe, seja o trabalho, seja a família. Como olha para essa tensão?

Gosto de fazer cinema sobre pessoas comuns, homens e mulheres que considero os verdadeiros heróis pobres da vida quotidiana. Porque viver é muito exigente, dá muito trabalho. Trabalhando sobre isso, acabo por trabalhar também sobre o imperceptível: acontecimentos aparentemente irrelevantes, quase tolos, que, no entanto, mudam a vida.

Por exemplo, a chegada de uma filha traída pelo marido a casa, com os filhos, pode transformar tudo num inferno. E são situações normais, que acontecem a qualquer um. É precisamente sobre isso que gosto de trabalhar.

Por escrever, realizar e interpretar nos seus filmes, temos sempre a percepção que há muito de si neles. Essa luta entre querer viver a sua própria vida e ter de ceder aos outros também lhe pertence?

Sim, tem razão. É uma belíssima pergunta. É quase uma luta quotidiana: tentar estar bem, mas ser quase impossível consegui-lo. A família é o símbolo disto, porque dentro da família há tantos sentimentos que, às vezes, podem até anular o indivíduo, desfazer a própria identidade.

Come ti muovi, sbagli

Começou a realizar muito tarde, já perto dos 60 anos. Já tinha um plano, uma ideia clara do caminho que iria seguir, ou foi Pranzo di Ferragosto (2008) e o seu sucesso que o guiou? 

Preparei-me para isso. Sempre soube que, de algum modo, faria cinema. A escrita ajudou-me bastante. Hoje escrevo mais rápido, mas os primeiros filmes exigiam pelo menos um ano de preparação intensa, em que escrevia realmente muito. Portanto, de certa forma, sabia o que estava a fazer. Mas, claro, nunca se sabe o que acontece depois.

Na verdade, só a falar convosco, jornalistas e críticos, é que percebo o que fiz. Enquanto se faz um filme, ou mesmo quando se acaba, acho que os realizadores não têm uma visão clara daquilo que criaram. Não sabia se teria sucesso ou não. Foi a falar convosco que percebi os filmes que tinha feito.

E os lugares onde filma? As cidades, os bairros, tornam-se também personagens nos seus filmes. Qual a importância da geografia no seu cinema?

Absolutamente. Roma ajudou-me muito. Porque além dos lugares  físicos existe um espírito, algo no ar que me interessa. Tento falar disso também: de um espírito um pouco perdido, mas que em Roma ainda existe, sobretudo nos bairros, uma certa solidariedade.

É curioso: Roma é uma metrópole, mas une as pessoas como se fosse uma aldeia. Esse espírito de comunhão é importante para mim, e acho que se nota nos filmes. Para mim, os lugares têm de ter essa força, quase como personagens.

Em geral, quando o cinema aborda a velhice, mostra pessoas já no fim da vida. Mas nos seus filmes vemos personagens que, mesmo envelhecidos, ainda iniciam coisas novas. Considera que está a surgir uma nova forma de olhar para o envelhecimento no cinema?

É muito interessante o que diz. Eu próprio, envelhecendo, reparo numa coisa importante: no cinema contemporâneo, sobretudo em Itália mas também no resto do mundo, há cada vez mais filmes realizados por mulheres. E isso é uma grande novidade.

Esse olhar feminino pode mudar a visão do mundo. Enquanto o olhar masculino tende a ser mais brutal, mais sintético, o feminino traz outra profundidade. Pode ser inovador, especialmente em temas como o envelhecimento ou as relações entre indivíduos, que podem ser mais harmoniosas, mesmo quando são complexas.

Acho que a visão feminina pode trazer algo de mais profundo, mais subtil e mais importante.

Vai continuar a explorar estes temas nos seus próximos filmes? Tem algum novo projeto?

Neste momento não tenho um novo projeto. Acredito que continuarei a trabalhar sobre os temas da vida quotidiana, aparentemente simples, mas muito densos. Confesso que tenho medo de fazer um filme épico, de aventura ou de guerra. Gostava, sonho com isso, mas acho que não sou capaz.

Portanto, sinto-me um pouco forçado a permanecer nestas histórias pequenas, mas a ir cada vez mais fundo nelas. Gostava de fazer um filme de aventura, sim, mas à minha escala — sempre pequeno, sempre circunscrito. 

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