Portobello: a série da HBO Max que revive o caso que mudou a justiça italiana

(Fotos: Divulgação)

Composta por seis episódios de 60 minutos, Portobello é a nova incursão do veterano realizador Marco Bellocchio na televisão, três anos depois da estreia de Esterno Notte.

Com os dois primeiros episódios exibidos no Festival de Veneza, o projeto da HBO Max acompanha de perto o caso que envolveu Enzo Tortora (1928–1988), apresentador de televisão italiano injustamente condenado em 1985 por alegadas ligações à Camorra. Absolvido de todas as acusações pelo Supremo Tribunal em 1987, Tortora nunca recuperou totalmente e morreu no ano seguinte. Portobello retoma o nome do programa de variedades transmitido às sextas-feiras, entre 1977 e 1983, que Tortora criou e apresentou.

Mesmo para quem não conhece Tortora, a história é irresistível: a ascensão e queda de um ícone, um enredo que parece inventado mas é real. É universal — a idolatria e o linchamento público continuam atuais em todo o mundo”, afirmaram em Veneza os produtores Laura Carafoli, Simone Gattoni e Lorenzo Mieli. “Este projeto foi uma dádiva para lançar a HBO Max em Itália. Em Los Angeles, o ‘sim’ foi imediato.

Explicando que a figura de Enzo e o programa Portobello nunca o tinham atraído particularmente, Bellocchio contou que, ao ver na televisão a sua detenção e a violência dos insultos, sentiu uma urgência em contar a sua história.

Imaginem se Oprah Winfrey fosse de repente acusada de pertencer a um cartel de droga. Soaria inverosímil — mas em Itália aconteceu. Esse choque é o coração da série”, acrescentou Lorenzo Mieli. O argumentista Stefano Bises completou: “Tínhamos dois eixos narrativos: Portobello e a Camorra. Era preciso entrelaçar o sucesso público com o confronto com Giovanni Pandico, o mafioso que odiava Enzo sem nunca o ter conhecido, convencido até de ter uma ligação telepática com ele. A acusação nasce de uma obsessão e de um mal-entendido. A dificuldade foi estruturar esta teia de acasos. Cada personagem era irresistível: Tortora, complexo e multifacetado; Pandico, um anti-herói extraordinário; os juízes e testemunhas, retratos de um país em mudança nos anos 80.

Pandico não podia ser reduzido à loucura”, sublinhou o ator Lino Musella, que o interpreta na série. “Trabalhámos sempre para lhe dar humanidade. Estudei gravações, fotografias, a sua voz. Bellocchio pedia-me constantemente verdade, autenticidade, evitar cair numa máscara caricatural.”

Já Fabrizio Gifuni, que dá vida a Enzo Tortora, destacou como o caso transformou o Código de Processo Penal em Itália: “Foi um trauma que obrigou a reformar a justiça. Até então, o sistema era inquisitório, quase kafkiano: podia-se ser preso sem sequer saber porquê. É um tema universal — o abuso da justiça, a queda de uma figura popular. Tortora era seguido por 28 milhões de italianos, símbolo de confiança. E, de repente, o país virou-se contra ele. Porquê? Inveja? Desejo de ver cair os poderosos? Ou o instinto bárbaro de destruir um ídolo? É essa ambiguidade que torna a história tão atual.

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro. A série Portobello estará disponível na HBO Max no final do primeiro trimestre de 2026.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/5odv

Últimas