Dead Man’s Wire: Gus Van Sant regressa com thriller baseado em crime real

(Fotos: Divulgação)

Seis anos depois de Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot, Gus Van Sant está de regresso ao cinema e a Veneza com Dead Man’s Wire, um thriller baseado num crime real perpetrado por Tony Kiritsis (Bill Skasgaard), um homem do Indiana que, em 1977, amarrou o pescoço de Richard Hall (Dacre Montgomery) a um “fio de segurança” conectado à sua espingarda – a qual dispararia se os atiradores de elite da polícia tentassem matá-lo. Tony acreditava ter sido lesado num negócio imobiliário pelo corretor de hipotecas. O confronto, que se desenrolou durante dias nas ruas de Indianápolis, tornou-se um acontecimento mediático nacional.

Dacre Montgomery e Gus Van Sant (Credits Jacopo Salvi La Biennale di Venezia – Foto ASAC) (2)

O guião já existia antes de eu me envolver”, disse Gus Van Sant aos jornalistas no Lido, acrescentando que lhe despertou interesse a ação se desenrolar-se na Região Centro-Oeste dos EUA (Midwest), onde a sua família é originária. “Quase nunca se filma no Midwest. A localidade atraiu-me logo. E claro, a história era bizarra, o que também foi um chamariz. O engenho que ele construiu para não ser morto era absolutamente insólito e uma forma estranhíssima de raptar alguém. E a ideia de que estava a raptar Richard Hall por motivos que, para ele, eram heroicos — ainda que de heroísmo equivocado — era fascinante. (…) Não acho que Tony se visse como perdedor (loser), mas como alguém a quem estavam a tirar tudo. Lutava contra forças maiores, sim, mas era um homem em luta. Muitos dos meus filmes são sobre quem está na base da sociedade. Se são ‘perdedores’, são também profundamente humanos e merecem empatia”.

Admitindo que, apesar da história datar de 1977, o filme parece atual, Van Sant confessou que, quando começou a pré-produção, certos acontecimentos políticos fizeram ressoar o tema. “Isso acabou por nos influenciar, claro, mas não alterámos o guião”, disse, acrescentando que encontra semelhanças entre este filme e Elephant: “Sim, pela intensidade e pela violência. São histórias diferentes, mas partilham esse lado”.

Ausente no Festival de Veneza, Bill Skarsgård interpreta o papel de Tony, adicionando ao portfólio da edição de 2025 mais uma interpretação marcante. Ao seu lado, no elenco, estão Dacre Montgomery, Myha’la, Cary Elwes e Colman Domingo. Este último assume o papel de um radialista que transmitia aquilo que Tony dizia quando telefonava para a estação. Quando questionado sobre o seu processo criativo, visto voltar a desempenhar uma personagem real, como em Sing Sing, Coleman Domingo respondeu: “Para mim, tudo começa com a pesquisa. Depois, tenho de trazer esse homem real para dentro do meu corpo. O Gus deu-me liberdade para encontrar a minha versão de Fred Heckman (Fred Temple no filme). Senti que o meu papel era ser uma voz fiável, um ponto de equilíbrio no meio da tempestade criada pelas personagens do Bill e do Dacre. Gravei tudo em apenas dois ou três dias, entre projetos, mas não podia deixar de participar. Estas histórias são importantes porque mostram o que acontece quando uma pessoa comum sente que não tem recursos ou força no mundo”.

Recorde-se que, originalmente, Dead Man’s Wire estava previsto para ser realizado por Werner Herzog, com Nicolas Cage no papel principal. Essa versão nunca avançou, mas o projeto foi retomado com Gus Van Sant na realização.

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro, e Van Sant será ainda distinguido no certame com o Prémio Campari.

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