Aleksandr Sokurov: “Nenhum grande problema foi resolvido desde os anos 50”

(Fotos: Divulgação)

Com uma relação de longa data com o Festival de Veneza, que inclui a exibição de Francofonia (2015) e a conquista do Leão de Ouro com Fausto (2011), o russo Aleksandr Sokurov regressou ao Lido este ano, fora de competição, com Director’s Diary, um documentário “monumental” de quase cinco horas (305′) onde revisita décadas de memória política e cultural da Rússia e da Europa. 

Descrito nas suas notas de produção como uma “biografia espiritual” da Rússia e “uma meditação cinematográfica sobre a memória histórica, a identidade coletiva e a condição humana“, o projeto foi filmado inteiramente com dinheiro privado, algo que o cineasta sublinhou na conferência de imprensa em Veneza. “Quero, antes de mais, agradecer ao Festival pela possibilidade de mostrar este filme — não é um filme fácil, sobretudo num tempo em que o cinema comercial prevalece. Exibi-lo, nestas condições, é um enorme presente para toda a equipa. Agradeço também aos meus produtores e aos compatriotas russos que tornaram possível o projeto: foi filmado apenas com dinheiro privado.

Explicando que este era o seu primeiro projeto em que foi um participante direto dos acontecimentos narrados, Sokurov relembrou que normalmente escreve ficções, mas que desta vez foi o seu país, a história e os seus compatriotas que, de alguma forma, “criaram os acontecimentos que compõem a nossa memória”: “O que preocupava as pessoas há 30 ou 40 anos continua a preocupar-nos hoje. Nenhum dos grandes problemas — desde os anos 50 até agora — foi realmente resolvido. Basta olhar para a Palestina: falava-se dela já em 1957-58, mas nada foi feito, nem pela Europa, nem pela ONU. O desarmamento proposto por Khrushchev nunca se concretizou. Pelo contrário, na década de 50 já havia mísseis americanos em território britânico (….)  Devemos chegar à conclusão de que a história pouco ou nada nos ensinou — pelo menos na segunda metade do século XX. Nem mesmo a Igreja cristã conseguiu convencer de forma duradoura. No cristianismo já está escrito tudo: não é preciso inventar nada de novo. E, no entanto, no velho continente, repetem-se os mesmos erros.”

Alexander Sokurov © Locarno Film Festival / Ti-Press / Alessandro Crinari.

Recordando que é um historiador (porque foi em História que se formou), Sokurov disse que observa há décadas que, no velho continente, nenhuma grande questão política foi resolvida de forma pacífica, mas sim através de guerra e de conflitos militares. “Falta-nos a cultura do diálogo, a capacidade de sentar à mesa e resolver pela diplomacia”, afirmou, adiantando que deu o nome que deu ao filme pois isso mostra como reuniu e selecionou os factos e episódios inseridos nele. “Não é um diário — a reflexão ainda está por vir. Houve um tempo para espalhar as pedras; agora é tempo de as recolher. Não quis fazer uma análise, mas sim uma síntese: recolher fragmentos e reconstruir uma integridade possível da vida humana e da história. Só assim podemos compreender um pouco do que se passou ao nosso lado”.

Quando questionado por que razão o seu filme dedica tanto espaço a figuras políticas e estadistas, o russo afirmou que foram estes que determinaram grande parte da vida social, quase sempre sem perguntar se a população precisava ou não das suas decisões: “Enquanto milhões de pessoas vivem, trabalham, dançam e cantam, muitas vezes ignoram por completo o que se decide em seu nome. Essa separação entre a vida da política e a vida do povo é, hoje, uma característica universal — acontece na Rússia, em Itália, na Alemanha ou no Brasil”.

Exibido fora de competição, Director’s Diary sucede a Fairytale – Sombras do Velho Mundo (2022), filme estreado em Locarno onde reunia, num purgatório monocromático fantasmagórico, nomes como os de Hitler, Estaline, Mussolini e Churchill, além de presenças especiais de Napoleão e Jesus Cristo.

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

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