Desde 2023 que não há ano que não haja um filme de Yorgos Lanthimos, o realizador dos estranhos Canino (2009), Alpes (2013) e A Lagosta (2015). E não há filme do grego desde A Favorita (2018) que não conte com Emma Stone. Assim, e depois de Pobres Criaturas (2023) e Histórias de Bondade (2024), Veneza assistiu, mais uma vez, a uma nova colaboração entre Stone e Lanthimos: Bugonia, na corrida ao Leão de Ouro.
Em Bugonia, a atriz interpreta o papel de uma poderosa CEO de uma grande empresa que é raptada por dois teóricos da conspiração que acreditam tratar-se de uma extraterrestre com intenções de destruir a Terra. Combinando sátira social, paranoia contemporânea e ficção científica, o filme aborda como olhamos para o poder, a tecnologia e a própria humanidade.
Quando questionada na habitual conferência de imprensa em Veneza sobre a possibilidade de existirem seres a observar-nos a partir “lá de cima”, a atriz chamou à equação Carl Sagan para responder aos jornalistas: “Para mim, uma inspiração é Carl Sagan. Ele acreditava que pensar que estamos sozinhos no universo é uma visão narcisista. Eu acredito em vida extraterrestre, sim”.

Filmado em VistaVision, um formato raro criado em 1954, Lanthimos confessou que essa escolha vinha já de Pobres Criaturas, que parcialmente já tinha sido rodado assim. “Adorámos o resultado”, explicou o cineasta. “A imagem é belíssima, com uma sensação de hiperrealidade. Decidimos então arriscar e usar o VistaVision para uma longa-metragem inteira. Claro que trouxe muitos obstáculos: é uma câmara antiga, enorme, barulhenta, e estava sempre a avariar. Mas o resultado valeu a pena — deu uma textura única ao filme”.
Já sobre a escolha do realizador em lidar frequentemente com cultos, religião e estruturas de poder, sempre de forma complexa, num tempo em que os grandes estúdios parecem preferir o escapismo nas telas, Lanthimos afirmou que essa não é uma tendência atual, mas bem antiga: “É algo que sempre existiu. O cinema é ao mesmo tempo arte e entretenimento, e como envolve custos enormes, nem todos os filmes conseguem ser feitos. Há produções que são ambas as coisas. O que me interessa é não separar os filmes em categorias rígidas, porque isso é também um tema do filme: os nossos preconceitos e a forma como vemos o outro. Este é um cenário cada vez mais difícil para o cinema independente, mas não é novo”.
Também presente na conferência, outro repetente na colaboração com Lanthimos, Jesse Plemons, volta a interpretar uma personagem controversa, que pode gerar incómodo. ”É possível que algumas pessoas se sintam perturbadas”, afirmou o ator que marcou presença em Histórias de Bondade. “Como ator, sinto que interpretar estas figuras é a minha forma de tentar compreendê-las. Existe um risco em desumaniza-las, porque são reais. Elas existem. O meu trabalho é explorar essa complexidade”.
O Festival de Veneza prossegue até 6 de setembro.

