Iluminado pelos Kikitos conquistados no Festival de Gramado há três anos — entre os quais o de Melhor Filme —, Noites Alienígenas continua a ser o único longa-metragem de ficção do Acre a destacar-se no panorama das grandes mostras da América Latina. Até então desconhecido no circuito exibidor comercial, o estado do norte do Brasil ganhou projeção graças a uma engenharia sonora impressionante, cuidadosamente construída desde a captação realizada por Pedro Sá Earp. É através do som que este tenso thriller social conduz o espetador numa viagem sensorial por uma Rio Branco efervescente, dividida entre cosmopolitismo e tradições indígenas milenares, onde o exotismo é habilmente contornado na direção de Sérgio de Carvalho.
A nova edição do Festival de Gramado recupera a produção, impulsionada pela visibilidade alcançada por um dos seus atores, Adanilo, que agora se destaca em O Último Azul, vencedor do Grande Prémio do Júri na Berlinale, e que estreia nas salas de cinema brasileiras no dia 28 de agosto.
A projeção de Adanilo impulsiona um resgate de Noites Alienígenas. Nele, percebem-se traços identitários fortemente enraizados na região, sem que se perca uma perspetiva universal. As incongruências do quotidiano de Rivelino (o impecável Gabriel Knoxx), Sandra (Gleici Damasceno) e Paulo (Adanilo), os três jovens protagonistas, não são assim tão diferentes da seca assistencial que afeta a juventude das periferias de São Paulo ou do Morro do Adeus, no Rio de Janeiro. Contudo, a identificação nacional que o argumento — escrito pelo realizador em parceria com Camilo Cavalcante e Rodolfo Minari — provoca é apenas o ponto de entrada para uma imersão nas especificidades locais. Entre elas, destacam-se cenas rituais dos povos originários, valorizadas pela montagem eletrizante de André Sampaio, e o debate sobre a chegada de criminosos do Sudeste que, num processo de migração forçada, inundaram a capital acreana com drogas e desordem social.
Com ares de maluco beleza e impecável ao interpretar Raul Seixas, Alê — um Chico Diaz em plenas alas do sublime — é um dos sintomas dessa migração desastrosa. Ele mantém Rivelino próximo da contravenção, embora o alerte constantemente para a necessidade de “abrir as portas da percepção“. Não se alinha aos restantes traficantes locais por agir com brandura — uma brandura que, ironicamente, facilita (#sqn) a vida de Paulo, um jovem indígena consumido pela droga, que alucina com seres da floresta e ignora o filho que teve com Sandra. Atento à força feminina num Acre feito de asperezas e resiliência, Sérgio de Carvalho oferece uma figura preciosa: Beatriz (Joana Gatis, numa atuação sufocante), mãe de Rivelino, que afoga os seus fantasmas no carimbó, sem saber como se preparar para a descida aos infernos que o abandono social brasileiro lhe reserva.

