Para inaugurar a sua competição de longas-metragens documentais com uma forte carga emocional, o Festival de Gramado escolheu Para Vigo Me Voy!, de Karen Harley e Lírio Ferreira — um filme que chegou elogiado de Cannes e apresenta um retrato afetivo do realizador e escritor Carlos Diegues (1940–2025). No seu país natal, o documentário pode interessar o público não apenas pelas imagens de arquivo raras e pelos depoimentos comoventes, mas sobretudo pelos registos inéditos de Deus Ainda É Brasileiro, o último projeto de realização de Cacá Diegues.
Filmado em 2022 no seu estado natal, Alagoas, no Nordeste do Brasil, durante o período da Copa do Mundo, o filme prometia estrear até ao Natal — algumas listas de programação apontavam para outubro, outras para dezembro. Até hoje, nada se viu. O C7nema acompanhou as filmagens e teve a oportunidade de testemunhar uma cena improvável: o Todo-Poderoso — encarnado por Antônio Fagundes — a passear com uma cabra pelos corredores de um edifício público.
“Tenho um amigo que me diz: ‘Estragaste-me a vida, porque toda vez que vou rezar, lembro-me de ti’”, brincou Fagundes com o C7nema, momentos antes de entrar em cena perante as câmaras de Edgar Moura, o diretor de fotografia do filme, sob as indicações de Diegues. “A questão que o Cacá me trouxe no primeiro filme foi a de olhar com mais atenção para a condição humana. E isso regressa agora.”

Em 2003, inspirado na literatura de João Ubaldo Ribeiro (1941–2014), Cacá lançou Deus É Brasileiro, um sucesso que vendeu 1,6 milhões de bilhetes. Foi o seu maior êxito comercial no século XXI, depois de ter alcançado anteriormente números astronómicos com Xica da Silva — que levou 3.183.582 espectadores aos cinemas — e Bye Bye Brasil, com 1.488.812 entradas vendidas, filme que ainda contou com uma nomeação para a Palma de Ouro em Cannes. A Croisette é evocada em Para Vigo Me Voy! numa fusão de memórias que atravessam décadas — dos inícios dos anos 1960 até ao final dos anos 2010.
O documentário inclui ainda um núcleo filmado nos sets de Deus Ainda É Brasileiro. Logo no início, numa cena de invenção poética, Cacá cai e é socorrido. Esta sequência não surge como sinal de fragilidade nem como anúncio da finitude. É um sinal do acaso — uma força que ele questionava, mas com respeito, nas suas análises políticas e existenciais.
Na trama do que se prevê ser o seu canto do cisne, Deus (Fagundes) já não conta com o seu guia, Taoca (papel originalmente interpretado por Wagner Moura). Regressa à Terra no dia do funeral deste amigo e chega com a intenção de acabar com tudo, desiludido com o rumo da Humanidade. Passa até por uma reunião celestial para decidir o destino da espécie. Ao reencontrar a sua amiga Madá (Ivana Iza, atriz e documentarista alagoana, que assume o papel antes encarnado por Paloma Duarte) e conhecer a jovem Linda (Laila Vieira), o Criador começa a repensar os seus afetos — e o futuro da América Latina, tendo um político (Otávio Müller) no seu radar.
O Festival de Gramado prossegue até este sábado.

