Gramado reaquece o prato “Estômago II”

(Fotos: Divulgação)

Há títulos da competição de Gramado de 2024 que nunca chegaram às salas comerciais, como Barba Ensopada de Sangue, de Aly Muritiba. Há outros que, apesar de terem saído do festival carregados de Kikitos e alguma visibilidade, tiveram uma estreia discreta nos circuitos tradicionais, mas ganharam notoriedade um ano depois, através do streaming. Estômago II – O Poderoso Chef, disponível no Brasil na Prime Vídeo, é um desses casos. As controvérsias que o envolveram, num verdadeiro cisma entre críticos, acabaram por aumentar a sua procura agora, no meio de uma nova edição do festival de Gramado.

Caroglio, uma espécie de Tony Soprano com paladar requintado, é um dos eixos centrais da dramaturgia. Num percurso entre a Itália natal e o Brasil, o contraventor acaba preso na América do Sul, confinado atrás das grades. A prisão que o acolhe serve na perfeição às suas artimanhas, permitindo-lhe destacar-se no mundo do crime. Diante de um conflito iminente pelo controlo do bloco onde está alojado — desencadeado por uma rusga com outros reclusos —, limita-se a dizer, com serenidade: “Deixa comigo”, quando lhe exigem uma tomada de posição. Cada passo que dá — tal como cada prato que saboreia — parece um movimento de enxadrista, um deslizar de peças num tabuleiro de ilegalidades e disputas territoriais. É assim que a saga de ascensão deste personagem se transforma numa verdadeira aula de sociologia.

Realizada com ritmo preciso por Marcos Jorge, a sequela da comédia sombria de 2007 expande-se agora no universo digital, na plataforma da Amazon, assente numa série de conquistas em Gramado. Caroglio, com todo o seu ardil, seduziu o júri da maratona cinematográfica gaúcha, garantindo ao italiano Nicola Siri o Kikito de Melhor Ator, pelo seu desempenho magistral. Basta a sequência de abertura — em que faz uma análise quase filosófica dos sabores da vida, seguida de um gesto mortal — para percebermos a maturidade do intérprete, que evoca o Robert De Niro de Os Intocáveis (1987).

O prémio de Siri foi partilhado com o seu coprotagonista, João Miguel, hilariante (mais uma vez) na retoma do seu personagem mais inesquecível: Raimundo Nonato, o Alecrim, o cozinheiro e presidiário. O seu regresso contagiou Gramado, onde a nova aventura foi eleita Melhor Filme pelo júri popular. Esta consagração amplia a visibilidade de uma produção com raízes no Paraná, que surge como uma lufada de ironia numa cena cinematográfica brasileira hoje inflamada por pautas políticas — justas e necessárias —, mas por vezes carente de mordacidade.

Migrante nordestino, há cerca de 15 anos confinado numa prisão de segurança moderada, Nonato continua a equilibrar subserviência e poder na forma como lida com os líderes à sua volta: os oficiais (como o diretor da instituição e os guardas), e os ilegais — como é o caso de Etecétera. É este o nome do bandido (encarnado com graça por Paulo Miklos), que se tornou o “xerife” da prisão no final do Estômago original. Truculento, sem cerimónias, exige ao seu cozinheiro de serviço que prepare um banquete de boas-vindas para Caroglio. Pretende receber o europeu — e a sua claque de comparsas italianos — com pompa, não apenas por uma questão de “boa vizinhança”, mas para deixar claro quem manda.

Só que Etecétera não contava com a fome de Caroglio. Não a fome por rigatoni com beringela, mas sim o seu apetite insaciável por poder. É sobre esse apetite — e as formas de o saciar — que versa o argumento escrito por Bernardo Rennó, Lusa Silvestre e o próprio Marcos Jorge.

A ascensão de Caroglio no filme — narrada com elegância através de uma montagem que oscila no tempo — ajuda o Brasil a compreender melhor o saldo miliciano que chegou até ao Palácio do Planalto. Porque, no Brasil, milícia é máfia. E a máfia elege falsos messias.

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