“A Praia”, de Petrus Cariry, chega finalmente ao circuito comercial

(Fotos: Divulgação)

Escondido há cerca de quatro anos, após acumular 23 prémios um pouco por todo o mundo, A Praia do Fim do Mundo vai finalmente estrear no seu país natal, o Brasil, reforçado pela sua inclusão (tardia, mas bem-vinda) na lista de 16 títulos em avaliação para a seleção do representante brasileiro aos Óscares de 2026. O seu realizador, o cearense Petrus Cariry, foi convidado a integrar o júri do 53.º Festival de Gramado, o que acabou por servir como mais uma montra para este filme de culto, há muito aguardado. Gramado acabou ainda por prestar uma ajuda adicional a este ensaio existencialista: esta terça-feira, a sua protagonista, Marcélia Cartaxo, será homenageada com o troféu honorário Oscarito. A estreia no circuito comercial está marcada para 4 de setembro.

Durante a passagem do filme pelo Fest Aruanda, Petrus fez uma análise da sua estética para o C7: “Talvez o Tempo seja um dos elementos mais importantes no cinema, de um modo geral. No caso de A Praia do Fim do Mundo, uma questão interessante sobre a perceção temporal é o facto de parecermos estar num ‘não tempo’. É um lugar onde a passagem do Tempo já não importa. Ali, o Tempo parou — e isso é, de alguma forma, profundamente perturbador. É um lugar que se tornou independente do relógio universal.

A ação de A Praia do Fim do Mundo desenrola-se em Ciarema, um litoral onde o avanço do mar destrói casas e deixa famílias desalojadas. No local, Alice (Fátima Muniz), uma jovem ambientalista, vive com Helena (Marcélia), a sua mãe doente, numa casa constantemente castigada pelas marés vivas. Alice quer ir embora. Helena quer permanecer à frente do mar. Ir ou ficar? Esse é o dilema que Petrus constrói a partir de uma perspectiva metafísica, que o consagra como um dos cineastas mais poéticos (e intensos) da sua geração no Brasil.

Longas-metragens como Mãe e Filha (2011) e O Barco (2018) granjearam-lhe reconhecimento internacional, em festivais como os de Havana, Trieste e Kerala. Filho do também realizador Rosemberg Cariry, autor de Corisco e Dadá (1996), Petrus segue uma linha trágica peculiar. Marcélia é uma parceira de criação que potencializa o seu olhar cinematográfico.

Nos filmes que faço, tento mostrar toda a minha arte, todo o meu orgulho por viver a minha carreira“, afirma Marcélia ao C7, na véspera de receber o troféu Oscarito. “É uma honra estar na galeria dos grandes artistas que receberam este prémio.

Em Gramado, Petrus avalia os concorrentes ao troféu Kikito ao lado da atriz Isabel Fillardis, do ator Edson Celulari e de realizadores com forte veia autoral, como Fernanda Lomba e Sérgio Rezende. Em 2023, o festival gaúcho distinguiu-o com o prémio por Mais Pesado É o Céu.

O Nordeste que eu percebo é o do movimento e das contradições. Culturalmente, a região que chamamos de Nordeste é muito rica e diversificada. Cada estado tem as suas próprias características, e o Ceará tem a sua mitologia ligada ao homem andarilho e à inventividade necessária para a sobrevivência, numa natureza quase sempre hostil. A geografia que eu recrio, embora assente na realidade, é também imaginária“, explica Petrus.

Neste sábado, ele e todo o seu grupo do júri anunciarão os vencedores do Festival de Gramado.

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