Dez anos depois da sua primeira projeção internacional, no Festival de Locarno, O Prefeito, de Bruno Safadi, volta a ganhar a tela grande na cidade que o viu nascer e que atravessava uma convulsão política nos tempos da sua realização. Este sábado, às 21h (horário brasileiro, 1h em Portugal), a produção terá uma sessão no Estação NET Rio, no âmbito da mostra Cavideo 28 Anos. Acompanha-a Sofá (2019), também realizada por Safadi e estreada no Festival de Turim.
Em 2015, quando surgiu (literalmente), num esforço para renovar a tradição cómica do Brasil, O Prefeito trazia um humor inflamável, aceso por um viés crítico, atento ao sucateamento do Rio de Janeiro da época — sobretudo em termos morais —, com a hipótese de o líder religioso Marcelo Crivella se tornar o alcaide local — o que viria a acontecer no ano seguinte. O filme convocava o audiovisual para o combate, apoiado na exuberante atuação de Nizo Neto no seu papel mais inusitado. O que então se revelou ousado na fita mantém-se vivo ao reencontrarmos a sua narrativa uma década depois, com o Rio de Janeiro sob nova direção. Não é todos os dias que uma comédia brasileira aposta num grau de experimentação formal como este, derivado do projeto de filmes de baixo orçamento Tela Brilhadora.
A obra deste cineasta — consagrado na América Latina desde que foi laureado com o prémio Barroco de Melhor Filme na Mostra de Tiradentes em 2008, com Meu Nome É Dindi — tem como traço identitário retratar e repensar ambientes urbanos — sobretudo do Rio — pouco explorados pela ficção, nomeadamente sob uma geopolítica do isolamento. Essa tal geopolítica ganha contornos metafísicos, quase fantasmagóricos, numa narrativa que utiliza fotografias como parte da sua linguagem — quase numa lógica de fotonovela, num dispositivo semelhante ao usado por Chris Marker em La Jetée (1962). Só que o dispositivo narrativo da estática é aqui aplicado às ruínas da Perimetral, um amplo viaduto demolido na reestruturação da zona portuária do Rio para que a cidade acolhesse o Campeonato do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Os escombros do seu entorno ganham contornos de assombro na fotografia a preto e branco de Lucas Barbi, cujo requinte plástico evoca pérolas cómicas de mestres do riso como Ernst Lubitsch (1892-1947), sobretudo o seminal The Shop Around the Corner (1940).
Inaugurada em 1960 para funcionar como uma das principais vias rodoviárias de acesso ao Rio, a Perimetral teve o seu prazo de validade esgotado no final de 2013. Foi derrubada no âmbito da reconfiguração da geografia carioca para sediar o Mundial de Futebol que terminou com o 7×1 da Alemanha contra o Brasil nos relvados e uma Olimpíada em que o Brasil conquistou 19 medalhas e Portugal apenas uma de bronze. Dos seus blocos de betão e de um emaranhado de ferros, surgiu uma crítica política bem-humorada, filmada ao longo de sete dias, em outubro de 2014. A presença de Nizo Neto naquele ambiente dava ao espaço um tom de piada, alheio à poeira levantada no ar, sob uma massa de destroços.

Figura icónica da dobragem, célebre pela voz de Matthew Broderick em Ferris Bueller’s Day Off, Nizo Neto é também um mágico e humorista que ganhou fama por interpretar o «aluno nota dez», Seu Pitolomeu, no programa Escolinha do Professor Raimundo, no qual trabalhava ao lado do pai, o comediante Chico Anysio (1931–2012). Em O Prefeito, assume o papel-título e colecionou elogios pelo seu desempenho. Encarna um alcaide que sonha em declarar a independência do Rio em relação ao resto do Brasil, tornando-se o seu sumo-governante. Só que este líder opta por governar a Cidade Maravilhosa a partir do que restou de uma via de acesso demolida: a Perimetral torna-se o seu castelo.
No meio dos seus delírios de grandeza e de um transtorno obsessivo-compulsivo relacionado com a limpeza, recebe a visita de uma entidade espectral (Djin Sganzerla, atriz sempre no registo agudo da ironia), que lhe entorpece os sentidos com pedras de crack. Ela é a ninfa que transforma a Perimetral num limbo a céu aberto.
Na trama do longa-metragem, a personagem de Nizo Neto, conhecida apenas como O Prefeito, é um governante viciado em medicamentos que sonha ser um novo Pereira Passos (1836–1913), o político responsável pela revitalização urbanística do Rio entre 1902 e 1906. A forma que encontra para «reinar» é emancipar o Rio como uma nação soberana, mantendo os impostos locais — altíssimos — dentro do perímetro da cidade. A princípio, a ideia parece megalómana, mas concretiza-se graças ao apoio de aliados governamentais que sonham partilhar a receita dessa tributação carioca entre si, além de receberem, cada um, uma rua ou um bairro do Rio — com os respetivos nomes — para usufruírem da metrópole como bem entenderem.
Aos poucos, contudo, o que poderia ser um golpe escuso transforma-se num governo revolucionário, cuja sede são os detritos de cimento, aço e poeira da Perimetral. A montagem de Ricardo Pretti valoriza cada reviravolta do argumento hilariante sem jamais sufocar a liberdade reflexiva que vai para além das leis de causa e efeito da narrativa.

