Idealizado como uma mescla de pré-estreias em solo sul-americano (como Alpha e Sentimental Value) com resgates de sucessos do passado (incluindo Blow Out e Akira), o FEST MUBI Rio de Janeiro promete mobilizar uma das maiores metrópoles do Brasil, no grande ecrã, com o repertório do streaming de curadoria humanizada, sem deixar de lado a produção local. A programação que ocupará a sala Estação NET Rio, no bairro de Botafogo, neste fim de semana, inclui a exibição de O Cheiro do Ralo, do pernambucano Heitor Dhalia, no domingo, às 14h30 (18h30 em Lisboa), numa celebração antecipada dos 20 anos desta longa-metragem icónica. O realizador, responsável por esta adaptação do romance homónimo de Lourenço Mutarelli (um dos mestres das BDs), dedica-se hoje a séries policiais de sucesso, como DNA do Crime e O Jogo Que Mudou A História. Foi neste filme que Dhalia se afirmou no audiovisual e chegou a concorrer ao Prix Un Certain Regard em Cannes com À Deriva (2009).
Dono de um currículo invejável, com passagens por festivais como Sundance, nos EUA, O Cheiro do Ralo (2006) foi o filme que fez a indústria do audiovisual descobrir um multiverso da loucura e genialidade nas páginas escritas por Lourenço Mutarelli, um dos artistas gráficos mais singulares da América Latina, em transição para a literatura. Mutarelli atua no aclamado Que Horas Ela Volta?, que colocou o Brasil no mapa há dez anos e regressa às salas de cinema do país no dia 7 com A Melhor Maior Do Mundo, apresentado (e elogiado) na Berlinale, em fevereiro. Também atua no filme baseado no seu experimento literário mais famoso. O Cheiro… estreou no Festival do Rio há 19 anos e conquistou lá o Grande Prémio do Júri, o Prémio da Crítica da Fipresci (Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica) e o troféu de Melhor Ator, entregue a uma estrela que foi essencial para o projeto: Selton Mello.

Também realizador, Selton tem acumulado sucessos recentes. Está em destaque no Globoplay no papel do engenheiro e ex-deputado Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui, que vendeu 5,8 milhões de ingressos e ganhou o Óscar. Paralelamente, uniu forças com Matheus Nachtergaele para levar O Auto da Compadecida 2 à marca de 4,2 milhões de espectadores pagantes, entre dezembro e março. Agora, a divertida aventura de João Grilo e Chicó estreia na Amazon Prime. Envolvido no remake de Anaconda nos Estados Unidos, com Jack Black e Paul Rudd, Selton regressará ao circuito este ano com Enterre Seus Mortos, de Marco Dutra, além de estar empenhado na nova temporada da série Sessão de Terapia.
A entrada de O Cheiro do Ralo na plataforma MUBI – e no MUBI FEST Rio – amplia as suas possibilidades de alcançar novas audiências. Conhecido pelo thriller sombrio Nina (2004), Dhalia ganhou reconhecimento internacional após adaptar o livro de Mutarelli, com Selton também como produtor. O ator visitava as salas onde o filme era exibido, como o Cine Odeon, no Rio de Janeiro, para atrair o público para uma narrativa inusitada nos padrões nacionais da chamada Retomada. Este era o nome dado à onda de produções idealizadas e lançadas entre 1995 e 2010 – de Carlota Joaquina – A Princesa do Brasil a Tropa de Elite 2 – impulsionadas por editais e incentivos públicos, como a Lei do Audiovisual, criada como resposta política à extinção da Embrafilme.
Na trama de O Cheiro do Ralo, fotografada de forma dionisíaca por José Roberto Eliezer, Selton interpreta Lourenço, dono de uma loja de penhores que humilha os seus clientes numa prática sádica de pequeno poder que namora com a perversidade. Maltrata uma jovem em crise que lhe pede ajuda, despreza um idoso dizendo “não gostei da sua cara” e é rude com um canalizador que tenta resolver o seu maior desafio: um cheiro pútrido que sai da fossa da sua loja. É como se o odor de enxofre do Inferno emergisse do tal ralo do título. No meio de uma histeria em torno desse fétido problema, Lourenço apaixona-se por (um detalhe da anatomia de) uma empregada (Paula Braun).
Rodado com um orçamento extremamente ajustado e apoiado na camaradagem da equipa, O Cheiro do Ralo tornou-se um sucesso comercial surpreendente para um filme de baixo orçamento (fontes da época estimam o custo em R$ 300 mil/€ 47 mil).

