Envolvido na realização de um projeto documental sobre o futebolista Sócrates (1954-2011), Walter Salles conquistou na noite de quarta-feira o troféu Grande Otelo de Melhor Realização por Ainda Estou Aqui, que volta aos cinemas no seu país já esta sexta-feira, com a exibição no festival Bonito Cine Sur, em Mato Grosso do Sul, numa evocação à conquista do primeiro Óscar do Brasil. Com uma receita de 36,1 milhões de dólares, apoiada na venda de 5,8 milhões de bilhetes no Brasil, a adaptação do romance homónimo de Marcelo Rubens Paiva marcou a noite do realizador a 30 de julho, ao arrecadar ainda outros 12 prémios na cerimónia do Grande Prémio do Cinema Brasileiro. Para além da distinção entregue a Walter, o drama venceu também nas categorias de melhor Longa-metragem de Ficção, Atriz (Fernanda Torres), Ator (Selton Mello), Argumento Adaptado, Montagem, Fotografia, Efeitos Visuais, Guarda-roupa, Banda Sonora, Direção de Arte, Maquilhagem e Som. A cerimónia decorreu na Cidade das Artes Bibi Ferreira, no Rio de Janeiro, e contou com a apresentação de Barbara Paz e Isabel Fillardis. Este resultado reforça uma nova fase de consagração para Waltinho, como é carinhosamente conhecido o realizador, que será homenageado pelo Academy Museum of Motion Pictures, em outubro.
Walter juntar-se-á a Bruce Springsteen, Penélope Cruz e Bowen Yang, que também receberão distinções. O cineasta será agraciado em Hollywood com o Prémio Luminary, concedido a um artista cujas contribuições alargaram as possibilidades criativas da produção cinematográfica. Além dos seus feitos enquanto realizador — que incluem a conquista do Urso de Ouro em 1998 com Central do Brasil —, Walter desempenha um papel fundamental nas Américas como produtor (através da Videofilmes) e como agitador cultural, promovendo debates sobre a latinidade.
Fernanda Torres, parceira de Walter em Terra Estrangeira (1995) e O Primeiro Dia (1998), ambos realizados em dupla com Daniela Thomas, conquistou em janeiro o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática por Ainda Estou Aqui. Ela integrará este ano o júri do Festival de Veneza. Em 2024, a longa-metragem passou pelo Lido, concorrendo ao Leão de Ouro, e arrecadou a distinção de Melhor Argumento. Ali começou o seu percurso de consagração, que incluiu o Goya e o prémio do público de Roterdão. Tanto sucesso só vem reforçar o prestígio autoral do seu realizador, o carioca Walter Salles, hoje com 69 anos.
“A minha geração chegou ao cinema após 21 anos de ditadura militar. Muitas histórias não puderam ser contadas durante esses anos de chumbo»”, recorda Salles numa entrevista por correio eletrónico ao C7nema, ao explicar o seu interesse em filmar a saga da advogada e ativista Eunice Paiva (1929-2018), mãe de Marcelo, o romancista por trás de Ainda Estou Aqui, na sua luta contra a autoridade militar instaurada no poder em 1964. “Teria sido natural abordá-las, mas o desastre do governo Collor no início dos anos 90 obrigou-nos a lidar com uma realidade imediata de um país novamente em crise. Quando a extrema-direita começou a ganhar força no Brasil, tornou-se evidente o quão frágil era a nossa memória dos anos de ditadura militar.“

Eunice (papel de Fernanda Torres) vivia na plenitude, no Rio de Janeiro do início da década de 1970, quando o marido, o engenheiro e antigo deputado Rubens Paiva (interpretado por Selton Mello), foi levado para prestar declarações por agentes armados. Nunca mais regressou. Eunice nunca deixou de procurar a verdade sobre o que lhe aconteceu, tendo-se formado em Direito para ter os instrumentos necessários para combater a pátria de farda verde-oliva. O filme recupera esta jornada, contando com a montagem de Affonso Gonçalves, parceiro habitual de Todd Haynes e Jim Jarmusch.
Eleito Melhor Filme de 2024 por duas associações de críticos do seu país (a ACCRJ e a Abraccine), Ainda Estou Aqui marcou o regresso de Walter aos longas-metragens de ficção após um hiato de 12 anos. O realizador afastou-se dos holofotes depois do lançamento de On The Road (Na Estrada), adaptação da obra literária de culto de Jack Kerouac (1922-1969), que concorreu à Palma de Ouro em 2012. Esta produção, com um elenco de luxo — Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Alice Braga, Amy Adams, Elisabeth Moss, Steve Buscemi e Garret Hedlund — pode ser vista atualmente no Brasil na plataforma Prime Video, da Amazon, em parceria com a rede Telecine.
Durante este período de ausência nas produções ficcionais, Walter lançou o documentário Jia Zhangke, um Homem de Fenyang (2014) e realizou curtas-metragens, como Quando a Terra Treme. Na qualidade de produtor, assinou os créditos do documentário Marinheiro das Montanhas, de Karim Aïnouz, e da animação Arca de Noé, de Sergio Machado e Alois Di Leo.
As plataformas digitais mantêm hoje o seu legado ativo, com destaque para Terra Estrangeira, disponível na Filmin.PT. Já Ainda Estou Aqui pode ser visto no Globoplay.
A capacidade de Walter de fundir melodrama com procedimentos documentais, apoiado num olhar atento às urgências e carências do Brasil da década de 1990, desencadeou o movimento conhecido como A Nova Onda Latino-Americana, que revelou novas vozes autorais — como Lucrecia Martel, Pablo Trapero, Fernando Meirelles, Jeferson De e Alejandro González Iñárritu — em várias regiões do continente.

