Ainda que ignorado pelo júri presidido por Juliette Binoche, “Nouvelle Vague”, de Richard Linklater, destacou-se na disputa pela Palma de Ouro de Cannes como um dos filmes de maior adesão afetiva do evento, em que o cineasta americano só havia concorrido uma vez, em 2006, com “Fast Food Nation”. O maior eco que a nova longa-metragem do realizador de “Boyhood” (2014) provocou foi incentivar a godardmania que só faz crescer nos festivais desde que Jean-Luc Godard (1930-2022) saiu de cena, há três anos, após suicídio assistido. O que Linklater faz é reconstituir a sua juventude, no momento em que ele, um crítico feroz, passa a realizar filmes. Esse mesmo resgate está a ser desenvolvido neste momento na cena teatral brasileira. No Rio de Janeiro, a atriz Priscilla Rozenbaum e o ator José Karini preparam um espetáculo em torno dos feitos do diretor de “O Maoista” (1967). Ainda pelo Brasil, a morte do poeta Armando Freitas Filho (1940-2024) popularizou os seus versos sobre Godard chamados de “Riviera” e publicados na antologia “Lar,”. A sua estrofe inicial diz: “Acossado, no subsolo, pelo gesto gratuito/ preso na cadeira durante duas sessões/ sob o pulso entrecortado do crime e do amor/livre, errático, debaixo do lençol/ e da morte, disparada na rua:/ Traído! Denunciado! Entregue!”.
Na Europa e nos EUA, festivais de narrativa documental do Velho Mundo e as salas de exibição ditas arthouse da França hoje esforçam-se para encontrar um espaço para a curta-metragem “Scénarios”, cujo roteiro foi deixado semifinalizado por Godard, antes da partida. Exibido em Cannes, o filme é um tratado sobre a génese e a decadência da sociedade ocidental, construído a partir de imagens de arquivo, documentos e referências à espiral do DNA. Enquanto essa pequena, mas poética produção procura espaço em sala, streamings de todo o mundo abrem uma brecha para sua forma autoralíssima de narrar.
Repleto de ironia no script, “Scénarios” é uma experimentação filosófica de 18 minutos, concluída na véspera de morrer, há quase três anos. Acompanha o projeto um vídeo de 34 minutos no qual o próprio Godard apela para uma mixagem de arquivos a fim de deixar instruções acerca do modo como a curta deveria ser terminada e exibida.
Em 2023, Cannes exibiu um filme surpresa, de 20 minutos, construído por Godard, nos últimos meses dasua vida, a partir de uma colagem de imagens, chamado “Drôles de Guerres”. Os seus colaboradores habituais, Fabrice Aragno, Nicole Brenez e Jean-Paul Battagia, finalizaram a curta de 20 minutos, autoclassificado-a como “o trailer de um filme que jamais existirá”, e definindo-a como um ensaio sobre a overdose de signos que a internet deposita sobre nós, a cada segundo. A MUBI trouxe essa experiência ao Brasil.
“Palavras não são um sinónimo de linguagem, pois linguagem é algo além, é um conjunto de procedimentos de como empregamos signos. O problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira”, disse Godard ao Festival de Cannes de 2018, pouco antes de receber uma Palma de Ouro Honorária por “Imagem e Palavra”, a sua derradeira longa-metragem.
Essas palavras ditas à Croisette não se enquadraram num processo convencional de entrevista, ao vivo. Ele falou com Cannes do seu escritório, na Suíça, usando Facetime, numa conversa em que elogiou a herança cultural de entrevistados da Rússia, de Portugal e do Brasil e lamentou o facto de todos falarem em Inglês. “Quem nasce na Itália é italiano. Quem nasce na China é chinês. Quem nasce na França é francês. Mas quem nasce nos Estados Unidos leva o gentílico de americano. A omnipotência deles é tanta que não levam o nome do país e, sim, do continente”, disse o cineasta numa conferência de imprensa nos anos 1990.
No império do efémero que o mundo mediático virou sob o garrote das fake news, o cineasta franco-suíço responsável por injetar poesia na semiologia, saiu de cena fazendo da sua partida um espetáculo transgressor, desafiando o Tempo, deixando como legado 118 filmes (entre curtas e longas) e mais 12 produções para a TV (entre séries e especiais). Segundo familiares e amigos próximos, entre eles, a mulher do realizador, a cineasta e produtora suíça Anne-Marie Mieville, a sua morte foi uma opção diante do desgaste que sentia. Levando-se em conta que há ainda anotações dele prontas para que Anne-Marie e parceiros, Aragno e Battagia, deem partida a novos filmes. O inspirado trabalho de Linklater vai ajudar nessa nova revisão sentimental do artesão semiótico francófono.
Apoiado num requintado visual em preto e branco, assegurado pelo diretor de fotografia David Chambille, “Nouvelle Vague” apresenta o trabalho mais maduro de Linklater. Ele entrou numa vibe de revisar os feitos de artistas de veia indomável como o compositor Lorenz Hart (1895-1943), a personagem central de “Blue Moon”, que lançou na Berlinale, em fevereiro, na corrida pelo Urso de Ouro. Agora é Godard. Um Godard infantil ainda, vivido (com ironia) por Guillaume Marbeck.
Aos 29 anos, ele era um escriba de temperamento da “Cahiers du Cinéma” (revista criada em 1951 e encarada como Bíblia pela intelectualidade cinéfila) quando resolveu filmar uma primeira longa-metragem para não ficar para trás dos colegas François Truffaut e Claude Chabrol, interpretados por Adrien Rouyard e Antoine Besson, os dois, ao lado da belga Agnès Varda (1929-2019) inventaram a tal Nouvelle Vague, o movimento que deu status de modernidade ao cinema francês, ao propor que cada exercício fílmico fosse uma revolução em si, na forma e no conteúdo. A centelha revolucionária de Godard leva à ideia de uma história de amor entre uma jovem de classe média metida a jornaleira – figura encarnada por Jean Seberg, encarnada por Zoey Deutch – e Jean-Paul Belmondo, interpretado por Aubry Dullin. A cada sequência, quando ele decide realmente filmá-la, Godard enlouquece a equipa, inflama o mítico fotógrafo Raoul Coutard (Matthieu Penchinat) e tira Seberg da sua zona de conforto.

