Ao ritmo da montagem de Sean Baker, Shih Ching Tsou tem a sua estreia na realização com “Left-Handed Girl”

(Fotos: Divulgação)

Produtora, realizadora e atriz, Shih Ching Tsou é principalmente conhecida pela sua colaboração de duas décadas com o mais famoso representante do cinema independente americano da atualidade, Sean Baker, mas pela primeira vez assumiu a realização de uma longa-metragem, “Left-Handed Girl, que teve a sua estreia no Festival de Cannes, sob as luzes da Semana da Crítica.

Alucinante na sua montagem, não fosse ela assinada pelo próprio Baker, que também coescreveu o guião e produziu, “Left-Handed Girl leva-nos a Taiwan, território onde vamos conhecer a história de três mulheres: uma mãe e duas filhas, uma das quais, criança, nos vai guiar por uma história onde a tradição, o patriarcado, a luta de classes e as relações familiares se cruzam com grande complexidade . Qualquer semelhança com o cinema de Sean Baker não é coincidência, em particular no que concerne ao dar destaque a uma criança (Nina Ye) abandonada à sua sorte e às circunstâncias do mundo adulto, como vimos, por exemplo, em “Florida Project”.

Nasci e fui criada em Taiwan e conheci o Sean em 1999, quando fui estudar para Nova Iorque. Quando o conheci, ele já tinha acabado o curso e estava a montar o seu primeiro filme. Percebemos que tínhamos muitos gostos semelhantes e conectamo-nos por aí”, explicou-nos a cineasta, que demorou mais de 20 anos para levar este projeto ao grande ecrã. “Logo no início surgiu a ideia de trabalharmos juntos e contei-lhe uma frase que o meu avô me disse, e que insinuava que a mão esquerda é a mão do diabo. Ele ficou intrigado com a frase e seguimos para Taiwan em 2001, na esperança de encontrar uma história para conectar a essa frase. Fizemos algumas filmagens e até editamos um trailer, mas percebemos que era uma história demasiado grande para o início de carreira. O Sean só tinha um filme e eu não tinha experiência. Seria impossível arranjar financiamento, ainda por cima para um filme filmado localmente. Ficámos em Nova Iorque e ele fez o “Take Out”, em 2003, com 3 mil dólares e uma equipa de 2 pessoas. Depois seguiu-se o “Prince of Broadway” (2008) e, por volta de 2010, pensámos em avançar novamente. Seguimos outra vez para Taiwan durante um mês e procurámos mercados e locações para filmar. Foi aí que conhecemos uma menina de cinco anos que corria de um lado para o outro enquanto a mãe trabalhava num stand de Noodles. Aquele mercado era o seu recreio. Foi aí que a menina e o mercado surgiram pela primeira vez no guião. Mas não conseguimos encontrar dinheiro para fazer o filme. Só quando viemos com o “Red Rocket” a Cannes, em 2021, é que finalmente encontramos um investimento sólido para ele. Pedimos também ajuda a Taiwan e conseguimos finalmente avançar com o filme

A primeira cena do filme, onde a criança brinca com um caleidoscópio, simboliza uma interpretação pessoal do mundo sob o olhar infantil, entre o real e o imaginado. “As crianças veem as coisas, mas não entendem completamente”, diz-nos Shih Ching Tsou. “O caleidoscópio funciona de forma simbólica para mostrar essa interpretação. A ideia para o início do filme veio da minha experiência com a minha filha, que tinha um caleidoscópio assim”

Procurando ver aquele mundo a partir dos olhos de uma menina canhota, numa tradição que diz que a mão esquerda é a do Diabo, a realizadora conta que  “apesar de muitos amigos dizerem que as tradições já não são aplicadas como eram antigamente”, acredita que “elas ainda estão muito vivas”. “As pessoas principalmente procuram sobreviver por entre dificuldades de relacionamento. Seja com os filhos, irmãs, mães. Queria conectar a audiência com esse sentimento”. Recordando que sempre que vai ao mercado que vemos, ele “está repleto de cores, de luzes e sons“, Shih Ching explica-nos o grande desafio e objetivo para esta sua primeira obra: “Queria levar a audiência a Taiwan, fazendo companhia à criança que assume o protagonismo”. E quanto ao futuro, uma coisa é certa: não vamos ter de esperar mais 25 anos por um filme da realizadora. Já existe uma ideia em marcha, “mais ainda é cedo para falar nisso“.

O Festival de Cannes termina a 24 de maio.

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