Numa cerimónia marcada pela atribuição da Palma de Ouro honorária ao ator Robert De Niro, o anfitrião do evento, Laurent Lafitte, não esqueceu logo no início desta sessão de abertura o desaparecimento de Émilie Dequenne, atriz belga falecida este ano e que começou a dar nas vistas depois do sucesso de “Rosetta“, filme de 1999 dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne. “Ela nasceu no Festival de Cannes. Sentiremos falta da sua graça humilde e poderosa. Gostaria de dedicar esta cerimónia de abertura a Émilie Dequenne”, disse Lafite, que avançou para um monólogo curioso sobre o papel do atores, nos sets, e fora deles, relembrando vários nomes que, através de fortes ações de ativismo, foram contra a corrente do estabelecido, eventualmente prejudicando a sua carreira. Neles encontramos James Stewart, Jean Gabin, Joséphine Baker, Marlène Dietrich, Richard Gere, Isabelle Adjani, Taraneh Alidoosti, Rock Hudson, Adèle Haenel e o ator, transformado em presidente do seu país, Volodymyr Zelensky. “Só os audaciosos devem fazer filmes”, acrescentou Lafite, citando uma frase creditada a Frank Capra.
Durante a apresentação do júri que vai escolher a Palma de Ouro desta 78ª edição (Halle Berry, Payal Kapadia, Alba Rohrwacher, Leïla Slimani, Dieudo Hamadi, Hong Sangsoo, Carlos Reygadas e Jeremy Strong), o evento colocou todos os holofotes na líder da decisão, Juliette Binoche, uma atriz que “nasceu na mesma sala de espetáculos” onde decorreu a cerimónia de abertura, o Grande Teatro Lumière.

Convidando o mundo a “abandonar o medo e o egoísmo, num processo de redescoberta da humildade e de cura da ignorância“, Binoche abordou os tempos periclitantes que vivemos, mencionando o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, mas igualmente a situação que a Faixa de Gaza atravessa, abordando a morte, a 16 de abril deste ano, da fotojornalista Fatima Hassouna, de 25 anos, e de dez dos seus familiares.
Seguiu-se depois um momento musical, a cargo da cantora francesa Mylène Farmer, que serviu de homenagem a David Lynch, o cineasta do “estranho”, como Lafite o descreveu, que não só deixou uma obra cinematográfica impressionante como serviu de farol (e adjetivo) para muitos dos que fazem cinema agora.
E por falar de inspiração, que dizer de Robert De Niro que, 14 anos depois de ter atuado como presidente do júri, em 2011, recebeu a Palma de Ouro honorária das mãos de Leonardo DiCaprio, “o rapazinho” que o próprio De Niro escolheu para protagonizar consigo “This Boy’s Life” (1993): “O trabalho de Robert De Niro reflete-se na forma como inspirou os atores a tratar a sua arte não apenas como uma performance a solo, mas como uma transformação. Robert De Niro não é apenas um grande ator, é O Ator. Com Martin Scorsese, contaram as histórias mais lendárias do cinema, histórias sem concessões. Não só fizeram filmes, como redefiniram o que o cinema poderia ser. Elevaram a relação entre atores e realizadores numa partilha de riscos”.
Emocionado com as palavras de DiCaprio, De Niro recebeu das suas mãos a Palma de Ouro, partindo depois para um discurso em que falou da arte como resistência, descrevendo Cannes como “uma terra fértil onde se criam novos projetos” “No meu país, lutamos arduamente para defender a democracia, que considerávamos garantida. Isto diz respeito a todos. Porque as artes são, por essência, democráticas. A arte é inclusiva e une as pessoas. A arte é uma busca pela liberdade. Inclui diversidade. É por isso que a arte é uma ameaça hoje em dia. É por isso que somos uma ameaça para os autocratas e fascistas deste mundo”, disse De Niro, numa alusão ao “presidente filisteu” Donald Trump, acrescentando que apesar da criatividade não ter preço, “tem agora tarifas”. “Temos de agir, e temos de agir agora. Sem violência, mas com paixão e determinação. Chegou a hora. Todos os que valorizam a liberdade devem organizar-se, protestar e votar quando há eleições. Esta noite, demonstraremos o nosso empenho prestando homenagem às artes, bem como à liberdade, igualdade e fraternidade. “
A finalizar a cerimónia, coube a Quentin Tarantino anunciar a abertura do Festival de Cannes, seguindo-se um “mic drop” em palco que certamente ficará para sempre na história do certame.
O Festival de Cannes prosseguiu com a exibição de “Partir un Jour”, a primeira longa-metragem de Amelie Bonnin, a qual se inspirou numa curta-metragem que assinou em 2023.

