Ainda antes de “Partir Un Jour” dar o pontapé de saída oficial da edição 2025 do Festival de Cannes, e antes da versão restaurada, em 4K, de “The Gold Rush” (A Quimera do Ouro), de Charlie Chaplin, ser exibida, três filmes diretamente ligados ao conflito armado que decorre na Ucrânia relembram a posição da Croisette sobre a guerra e como ela não pode ser esquecida no meio da famosa passadeira vermelha.
Numa ação coordenada entre o festivale a Câmara Municipal de Cannes, os três documentários foram exibidos no Palais des Festivals, com “Zelensky”, de Yves Jeuland, Lisa Vapné e Ariane Chemin, a abrir este dia especial, logo pelas 10 horas da manhã.
Já estreado na televisão, via canal Arte (podem assistir online), “Zelensky” traça o perfil do ator, produtor e presidente da Ucrânia Volodymyr Oleksandrovych Zelensky, narrando – através de entrevistas e imagens de arquivo – a vida de um homem que nasceu em 1978, em Kryvyi Rih (ou Krivoy Rog, em russo), centro siderúrgico e mineiro, na região centro-oriental da Ucrânia, onde a língua russa é predominante. “Foi daqui que vieram os minérios que ajudaram na construção da Torre Eiffel”, diz o narrador que acompanha todo o filme, seguindo o percurso de Zelinski, também conhecido como Volodia ou Vova, desde os primeiros anos de vida, até começar a singrar no mundo do espetáculo, tornando-se, via o seu grupo Kvartal 95, uma figura da televisão estimada. Vencedor do concurso “Dança com as Estrelas”, Zelinski atuava principalmente na Rússia, antes de seguir de novo para a Ucrânia após uma derrota num concurso televisivo em Moscovo. Logo após esse regresso, casou-se e manteve-se muito produtivo com a sua trupe, tornando-se produtor e ganhando cada vez mais fãs no seu país. Entre 2009 e 2013, participa em 7 filmes, predominando registos na comédia romântica, mas também em comédias espampanantes como aquela em que parodia Napoleão. Foi depois de 2014 e dos eventos na praça Maidan que este homem de origem judaica, mas não praticante, começou a entrar no universo da (comédia) política, atacando a corrupção generalizada, centrada em três oligarcas, um dos quais coproprietário do próprio canal de televisão onde Zelinski brilhava.

A comédia e a sua atividade política ganhou enorme fôlego quando criou e protagonizou a série “Servidor do Povo”, no qual um homem do povo assume a liderança da Ucrânia contra todas as expectativas. A série e o seu guião, fictícios, iam ganhar contornos de realidade quando, em 2018, o Kvartal cria um novo partido a que dá o nome da série que produzia, e Zelinski decide se candidatar ao cargo de presidente da Ucrânia. O anúncio da sua candidatura ofuscou o discurso de Ano Novo do então presidente Petro Poroshenko no mesmo canal, iniciando-se uma campanha eleitoral marcada pela sua fuga constante aos debates políticos. Em vez dos tradicionais comícios de campanha, este homem conduziu rotinas de stand-up comedy por toda a Ucrânia, ganhando a primeira volta das eleições. Sem hipóteses de continuar a não querer debater com o grande rival, ele decide participar num debate que terá lugar num estádio, abrindo um pouco mais a cortina às suas ideias políticas concretas, embora se recuse a assumir que é político – o que, como sabemos, é o melhor que um político pode dizer para uma nação frustrada com a corrupção e gerida em função dos oligarcas que a povoam.
Definindo-se como “antissistema” e “anticorrupção”, rapidamente a alcunha de populista surgiu para Zelinski, que neste documentário afirma que todos aqueles que ocupam lugares políticos têm algo de populista. Ganhou as eleições; foi nomeado presidente em 2019, e colocou muitos daqueles que trabalhavam na sua produtora em cadeiras de poder. Por exemplo, a mesma pessoa que escrevia o guião da série “Servidor do Povo” passou a escrever os seus discursos à nação.
O documentário faz então um percurso até ao início da guerra com a Rússia, muitas vezes estabelecendo uma ponte entre a ficção da série e a realidade. Após o início da guerra, o filme mostra também o poderoso discurso de Zelinski, via streaming, durante o Festival de Cannes de 2022, sublinhando a comparação de Vladimir Putin ao “Grande Ditador” que Chaplin levou ao cinema nos anos 1940.
Já ao início da tarde em Cannes, foi também exibido “Notre Guerre”, o quarto filme de Bernard-Henri Lévy entrar pela Ucrânia a dentro, juntamente com Marc Roussel. A dupla, em jeito de diário intercalado com flashbacks em que se recordam os pontos altos da guerra que começou em 2014, diversas frentes, como a de batalha em Pokrovsk e Sumy, no leste da Ucrânia, ou a dos combatentes da Brigada Anne de Kyiv, foram armados pela França, além de o quotidiano de moradores bombardeados pelas forças russas na véspera de possíveis negociações.. “Tenho demasiada subjetividade em mim para poder chamar-me um repórter de guerra”, disse ao Techinart em Cannes, acrescentando que depois de ter passado por países como o Bangladesh, as “imagens de horror fazem parte do seu quotidiano”, reconhecendo, porém, que “nunca se habitua” a elas.

Finalmente, o terceiro filme em torno da Ucrânia a ser exibido foi “2000 Meters to Andriivka”, de Mstyslav Chernov (20 Dias em Mariupol), o qual oferece uma visão envolvente da missão de um pelotão ucraniano na guerra, documentando-se a devastação da sua terra natal e os esforçosdas forças ucranianas para recuperar os seus territórios, em particular a aldeia estratégica de Andriivka.
O Festival de Cannes prossegue até dia 24 de maio.

