Espalhado ao longo de 13 dias, com projeções e debates em diferentes polos de exibição da capital argentina, o Bafici encerra a sua 26ª edição neste domingo num flirt com a banda desenhada de mais sucesso popular de sua pátria: a pequena Mafalda. Não se trata da tão esperada adaptação animada das suas tiras, preparada por Juan José Campanella (de “O Filho da Noiva”) para a Netflix (até por ser uma série) e, sim, de um documentário sobre seu criador: o filme “Quinografía”, de Mariano Donoso e Federico Cardone. Com imagens nunca antes vistas e depoimentos inéditos, o filme investigao lugar onde o artista gráfico Joaquín Salvador Lavado Tejón (1932-2020), ou apenas Quino, forjou a sua criatividade. A partir da sua biografia, descobrimos a riqueza política do seu trabalho nos comics e o colorido dos afetos na vida pessoal. Depois de se tornar uma celebridade mundial no mercado editorial, ele voltou viúvo e quase cego ao local onde nasceu e cresceu a fim de reviver recuerdos da infância.
A escolha da direção artística do Bafici, assinada por Javier Porta Fouz, de celebrar Quino se fez ainda mais bem-vinda em decorrência da agitação política da Argentina contra o desmantelar da cultura promovida pelo presidente Javier Milei. Nesse contexto de desmanche, a figura da menina Mafalda passou a circular com força total nas redes sociais e na imprensa impressa. As tiras nunca saíram do radar dos media, mas intensificaram-se de novembro para cá, após o “Não!” de Milei contra uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas proposta para intensificar esforços na erradicação de violências contra as mulheres.
As deliberações conservadoras (afinadas com a filosofia da ultradireita) de Milei encontram na heroína de seis anos uma dissonância. O simbolismo de oposição ao atual regime que ela carrega faz crescer a procura pelas antologias das suas historietas em meio à comemoração dos 60 anos de sua estreia nas BDs. Ampliou ainda o interesse por “Quinografia”. A atrevida personagem foi lançada em 29 de setembro de 1964, no semanário “La Plana”.

Há Mafalda por todo lado na web. Logo que se entra no site da editora brasileira Martins Fontes, encontram-se compilações das tramas de Quino, como “Nesta Família Não Há Chefes”, “Feminino Singular” e o precioso “Todas as Tiras”. Já na Amazon, chega-se a um “Toda Mafalda” de capa dura. Na Europa, em solo ibérico, a Nestlé lança uma linha de chocolate ao leite com ela na embalagem.
Best-seller com direito a estátuas em Buenos Aires, Mafalda ganhou uma longa-metragem de animação com o seu nome em 1982, dirigido por Carlos D. Márquez, que hoje pode ser visto no YouTube. Logo na sequência de abertura, ela desfila ironia: “A primavera é o que há de mais publicitário na vida”.
Reza a lenda que Quino teria publicado um total de 1.928 tiras da suu«a criação, que sofreu com a censura fardada de vários países sul-americanos (e na Espanha de Franco) onde generais se meteram no controle das suas nações, em tempos de jugo ditatorial. Em solo espanhol, ela chegou a ser publicada com uma tarja, “É uma BD para adultos!”, como forma de alertar mães e pais do seu teor subversivo. Sempre preocupada com a paz mundial, Mafalda revolta-se com o estado de coisas de um mundo assolado pelo capitalismo. Diz num de seus cartoons mais famosos: “Vamos tomar a vacina contra o ódio!”. Retruca os detratores da sua forma arredonda a dizer: “Não sou gorda, sou repleta de amor”.
“Quinologia” retoma esses factos ao rever os métodos de desenho de Quino. Antes de brilhar no mercado de artes gráficas, Mafalda foi esboçada num reclame comercial publicitário de 1963, feito pelo cartunista sob encomenda para uma propaganda da empresa de eletrodomésticos Mansfield, a ser publicada no diário “Clarín”. Quino recebeu a missão de criar uma personagem cujo nome deveria começar com “Ma”, para lembrar o nome da firma. Com base no filme “Dar La Cara” (1962), de José Martínez Suárez, estrelado pelo mítico cantor e cineasta Leonardo Favio (1938-2012), o cartunista criou o perfil da sua estrela de papel. Há uma sequência dessa longa-metragem na qual duas pessoas discutem ao lado do berço de um bebé chamado Mafalda.
A tal campanha publicitária acabou suspensa, mas ela acabou por surgir em jornais como “Mundo” e “Siete Días Illustrados”, alcançando espaço nobre no coração do público leitor. Até o início da década de 1970, Quino seguiu firme e forte com a sua produção diária, até se estafar. Hoje “Mafalda” é editada em 30 países, traduzida em 16 idiomas.
O Bafici anuncia os seus vencedores neste sábado. “Quinografia” passa no evento portenho fora de concurso.

