À espera do Eternauta

(Fotos: Divulgação)

Ao abrir uma série de debates sobre o futuro do cinema argentino sob o açoite da Era Javier Milei, o 26º BAFICI – Festival de Buenos Aires esbarra, múltiplas vezes, com conversas sobre o que periga ser “O” evento audiovisual do seu país em 2025: a série “El Eternauta”. Ricardo Darín de máscara intriga os seus conterrâneos e instiga a curiosidade do clube de fãs latino do ator. A estreia desse Original Netfilx está agendada para 30 de abril. Logo, a proximidade da sua vinda para o streaming atiça perguntas sobre a adaptação de uma BD seminal para a América Latina. Fora isso, o mercado editorial, tanto o de língua hispânica quanto o de língua portuguesa, dão um apoio aos esforços promocionais do streaming representado no imaginário pop por um N gigante ao lançar novas edições do épico gráfico de Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano-López.
 
No Brasil, a editora Pipoca & Nanquim relançou “O Eternauta” como nunca se viu. A sua edição é um “tijolo” de 372 páginas e faz ferver a espera pela versão serializada de uma BD que divide as águas (políticas). Na produção da Netflix, Darín interpreta Juan Salvo, espécie de emissário de uma Argentina catastrofista, vestido num traje de proteção, que parece uma roupa de mergulho. Bruno Stagnaro, cineasta por trás do filme de culto “Pizza, birra, faso” (1998), assina a realização. Ele assumiu um posto criativo que muitos gigantes portenhos da autoralidade (até Lucrecia Martel) disputaram. As primeiras imagens do seu trabalho, que começam a circular pela web sugerem que ele foi a escolha certa, apesar da concorrência.

A relevância de “O Eternauta” – lançado de 1957 a 1959 no suplemento “Hora Cero Semanal” – vai além da sua inequívoca potência visual e da sua dramaturgia sociológica, de prosa com a literatura H.G. Wells (1866-1946). Uma tragédia (cujo bastidores apontam suspeitas de vetores governamentais) em torno do (já citado) argumentista Héctor Germán Oesterheld, criador da trama, amplia a importância da BD. Nascido em 1919, ele desapareceu em abril de 1977, em meio a uma reunião de militantes de esquerda, como reação da ditadura aos antipatizantes do regime militar na Argentina. As suas quatro filhas caíram na clandestinidade e acabaram assassinadas. Duas delas estavam grávidas quando foram mortas.

O “desaparecimento” de Oesterheld teria ocorrido pouco depois dele publicar a parte dois das missões do Eternauta, lançada em 1976, pela Ediciones Record. Estima-se que o sucesso da primeira temporada do projeto com Darín na Netflix pode assegurar a adaptação desse segundo material com Juan Salvo. Esse Volume Dois também saiu em português.

Na banda desenhada, Juan Salvo relembra o seu passado. Vestido com trajes de borracha e máscara de homem-rã, ele enfrenta uma neve radioativa que cai sobre Buenos Aires, provocando morte em massa. Aos poucos, Oesterheld transforma o relato de Salvo numa releitura futurista de “Robinson Crusoé”, de Daniel Dafoe (1660–1731).

Em 1999, pouco antes de o cinema argentino entrar numa fase de reinvenção (e consagrar Darín), os episódios mais sangrentos da trajetória de “O Eternauta” foram relembrados pelo documentário “H.G.O.”. Nele, os cineastas Víctor Baylo e Daniel Stefanello, entrevistam os colegas de Oesterheld nos quadrinhos, além de escritores como Mempo Giardinelli. O seu trabalho com Salvo é uma metáfora dos riscos que a Argentina corria sob o jugo de um governo de ações fascistas.

O BAFICI segue até o dia 13 de abril.

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