Como qualquer guerra, a que assolou o Kosovo (1998–1999) deixou marcas nos seus cidadãos e feridas que vão demorar a cicatrizar. Ciente disso, e tendo como base a sua curta-metragem exibida na Berlinale em 2010, “Out of Love”, Birgitte Stærmose revisita no seu “Afterwar” – na competição Visti da Vicino (Close-up) do Bergamo Film Meeting – os jovens presentes nela, as suas memórias, sonhos e ambições, sempre entre o real e o ensaiado, dando uma imagem sobre as repercussões da guerra a longo prazo do ponto de vista existencial.
“Nunca pensei fazer um filme que acompanhasse durante 15 anos estas personagens. Fiz o primeiro filme e pensei: é só isto.”, explicou-nos a cineasta durante o Festival de Berlim, em 2024,, viajando novamente à produção de 2010 que abriu as portas a esta nova proposta. “Esse filme foi uma experiência muito poderosa e os miúdos tiveram um grande impacto em mim. Peguei neles novamente para esta nova experiência cinematográfica, a qual me dava uma enorme liberdade para criar”.

Enfatizando que antigamente os realizadores eram muito mais livres para criar e filmar, Birgitte sublinha que agora é tudo mais estruturado, seja pela dependência da existência de um guião, seja pela necessidade de financiamento. “Essas filmagens foram completamente livres, pois não havia uma estrutura rígida a seguir, nem produtores acima de nós a quem responder. Foi um trabalho muito, muito livre. Tínhamos um pedaço de papel nos nossos bolsos e era isso. Não havia uma estrutura de produção (risos). Claro que ao longo destes quinze anos fui acompanhando o crescimento deles, à distância, alguns apenas pelas redes sociais, ajudando-os como podia. Agora, com um bocadinho mais de financiamento e um projeto mais estruturado, voltei a falar com eles e perguntei se estavam interessados em continuar e surgir novamente, anos depois, perante as câmaras. (…) E tinham a liberdade de dizerem o que queriam e não queriam, pois existem sempre coisas que eles mostravam não estar à vontade para expor perante as câmaras. Em termos de presença perante as câmaras, todos eles mostravam personalidades muito fortes, por isso tínhamos de os relaxar para estar perante as câmaras. Eles entendiam o quão importante era este acompanhamento a eles em filme (…) foi uma negociação constante o que filmar e não filmar e eles tinham sempre o poder de dizer que não queriam fazer isto ou aquilo. A escolha estava no lado deles, não nós. Eu propunha, mas a palavra era deles. (…) E não queria nunca que se esquecessem que estão perante uma câmara. Muitos documentários seguem esta via, de fazer esquecer os objetos que estão a ser filmados. No meu caso, fiz o oposto. Queria que efetivamente quebrassem a quarta parede, que se conectassem com a câmara e com a audiência. Queria nisso captar uma confrontação e não meramente uma observação. Não tenho nada contra o cinema direto, mas para este projeto não era isso que pretendia.”
O Bergamo Film Meeting prossegue até ao dia 16 de março.

