Em ‘Das Licht’, Tom Tykwer faz luz sobre o narcisismo

(Fotos: Divulgação)

Afastado das longas-metragens desde Hologram for the King(Negócio das Arábias, 2016), num hiato do grande ecrã em que se devotou à série Babylon Berlin, Tom Tykwer retomou a conexão com os cinemas e com a Berlinale – sete anos depois de ter presidido o júri do evento – ao assinar um estudo sobre reconexões afetivas: Das Licht. A produção abriu a 75ª edição da maratona cinéfila berlinense, apoiada no carisma de Lars Eidinger, hoje uma das estrelas de maior ascensão na Europa. A exibição fora de concurso inaugurou a programação do festival com um debate sobre a atual saúde financeira da indústria cinematográfica alemã e a reconfiguração geopolítica da capital daquela nação.

Berlim é a cidade mais cinematográfica que existe, pois vive permanentemente em construção, como uma obra inacabada, com coisas grotescas a serem erguidas ao lado de construções lindas”, disse Tykwer, antes de responder ao C7nema sobre a sua recorrente colaboração com o diretor de fotografia Christian Almesberger, o seu parceiro criativo há 23 anos, desde Heaven (Paraíso), que concorreu ao Urso de Ouro. “Ele é uma maravilha que veio de outro planeta. É o austríaco mais cordial para ser ter do seu lado”.
Nascido em Wuppertal, há 59 anos, Tykwer foi um dos cineastas de maior destaque durante o redesenho do audiovisual germânico na conversão do cinema analógico (em película 35mm ou 16mm) para o digital, na década de 1990. Os filmes de culto Winter Sleepers (1997) e Run, Lola, Run(Corre, Lola, Corre, nomeado ao Leão de Ouro de 1998) fizeram a sua fama. O novo exercício da sua autoralidade (chamado The Light em inglês e A Luz em português) investiga as práticas de incomunicabilidade numa metrópole. Nesse drama com toques não realistas de musical, uma família se amontoa num apartamento e administra mal as suas desarmonias. O casal Milena (Nicolette Krebitz) e Tim (Eidinger) lidera esse arranjo familiar, mas parece incapaz de ter prazer ou de manter uma interseção de olhares. Embora as complexidades do dia a dia distanciem os seus integrantes, eles ainda preservam algum amor, mesmo sendo incapazes de criar consensos sentimentais. A sequência em que comem esparguete com manteiga coletivamente traduz a incapacidade que todas aquelas pessoas têm em disfarçar o seu enfado uns com os outros.

Quando passam a conviver com a síria Farrah (vivida por Tala Al-Deen), contratada como governanta, esse clã de Milena e Tim terá de aprender novas lições de empatia. “A palavra ‘narcisismo’ é muito mal interpretada hoje em dia, por simbolizar o amor de um indivíduo por si mesmo. Nesse filme, vemos que quanto mais pessoal um discurso for, mais universal ele será”, disse Eidinger, próximo a Tykwer na conversa com os jornalistas da equipa de Das Licht, no hotel Hyatt, centro nervoso da Berlinale. “Na arte, se formos corajosos ao mostrar quem somos, podemos mudar o mundo”.

Respeitado por seu virtuosismo, Tykwer impressionou a Berlinale em Das Lichtcom a sequência de uma corrida de bicicletas (“pega”, na gíria brasileira), com direito a uma fuga da polícia. “Foi uma homenagem explícita a ‘Jules et Jim’ pela retidão do movimento, sempre em frente, a ilustrar com as personagens, entre eles a de Tim, que vivem o desejo com a jovialidade dos jovens adultos de hoje”, disse o cineasta, ao C7nema.

A Berlinale segue até o dia 23.

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