Todd Haynes defende o cinema ‘indie’ no júri de Berlim

(Fotos: Divulgação)

Era esperada uma reação do júri da 75ª Berlinale contra a administração de Donald Trump na Casa Branca, por conta da escolha de um artista norte-americano, o realizador Todd Haynes, para presidir a escolha do vencedor do Urso de Ouro de 2025. Essa aguardada ofensiva foi aberta nos minutos iniciais do evento germânico, na conferência de imprensa dos jurados, quando o cineasta por trás de filmes de culto como Carol (2015) e Velvet Goldmine (1998) cravou: “Estamos num estado de crise, pois, nos seus primeiros dias de governo, Trump trouxe uma desestabilização”, posicionando-se contra a linha política de extrema direita do recém-empossado presidente dos Estados Unidos, numa mesa mediada pela atual curadora do Festival de Berlim, Tricia Tuttle, nascida na Carolina do Norte e antes associada ao BFI, em Londres.
 
Aos 64 anos, Haynes conta com uma equipa pautada pela diversidade profissional e cultural. O seu grupo é composto por três cineastas (a alemã Maria Schrader, que também é atriz; o marroquino Nabil Ayouch; e o argentino Rodrigo Moreno); a figurinista Bina Daigeler, vindo de Munique; a crítica de cinema Amy Nicholson, do “Los Angeles Times”; e a estrela chinesa Fan Bingbing. O júro anuncia o seu veredito na Berlinale Palast no dia 22. Até lá, eles vão testar os significados mais contemporâneos da palavra indie, o jargão dos EUA para “cinema independente”. Haynes ganhou o prémio queer, o Teddy, em Berlim em 1991, com a sua longa-metragem de estreia, “Poison” (“Veneno”), e, imediatamente, transformou-se num modelo intelectual dessa linhagem audiovisual avessa à legislação dos grandes estúdios.

Em resposta ao C7nema, Haynes dissecou o que significa o conceito “independência” para quem trabalha com o verbo “filmar”.
Comecei a fazer cinema no boom da SIDA (AIDS), preocupado com o esforço das vítimas para ter voz. Naquela época do ‘Poison’, os cineastas reagiam a esse contexto de formas diferentes. Os filmes que decidi fazer ali desafiaram o padrão vigente da narrativa e não apenas no conteúdo, mas também na forma. Descobrimos um mercado novo… e robusto. Essa cultura independente cresceu. Quando Quentin Tarantino apareceu e fez sucesso com os seus filmes, a partir de ‘Pulp Fiction’, vimos grandes agentes do negócio cinematográfico a se interessarem em explorar a energia que tínhamos. Isso gerou consequências positivas e negativas, mas seguimos por aí, desbravando as hipóteses criativas oferecidas pela tecnologia digital, distintos do que se faz nas franquias. Vemos hoje um nome como Sean Baker, que começou a fazer filmes com o telemóvel. Ou seja, nós ainda abrimos avenidas para as vozes autorais serem ouvidas”, disse Haynes ao C7nema, sem dar detalhes sobre o seu novo projeto, Fever, um biopic da cantora Peggy Lee (1920-2002), com Michelle Williams.

Ao lado de Haynes, Maria Schrader (realizadora de “She Said”) definiu a experiência ao lado do júri como “a construção de uma comunidade“. “A minha vida hoje é dominada por reuniões via Zoom. Ter um encontro presencial expande a nossa atenção e dá-me a chance de celebrar um evento que assegura espaço para o imaginário do mundo, sem medo de levantar questões”, disse Maria.
Algumas das palavras de maior contundência do júri vieram de Rodrigo Moreno, aclamado em Cannes, em 2023, pela realização de Los Delincuentes. Ele expôs os efeitos da presidência de Javier Milei na Argentina, ao declarar que “zero filmes foram produzidos” na atual gestão do país, nos últimos meses. “É uma tragédia, mas vamos seguir a filmar, ainda que por smartphone. O problema é saber como os profissionais do sector, principalmente os mais velhos, vão se sustentar”, diz Moreno.

Logo após a conversa com o júri, a Berlinale seguiu com as projeções para a imprensa do filme de abertura, Das Licht”. Quem inaugura a programação é o alemão Tom Tykwer, um dos realizadores mais importantes para o redesenho da produção germânica na conversão do cinema analógico (em película 35mm) para o digital, na década de 1990. Winter Sleepers (1997) e Run Lola Run(nomeado ao Leão de Ouro de 1998) fizeram a sua fama. O seu novo exercício, chamado The Light em inglês e A Luz em português, passa fora de concurso, apoiado no carisma de Lars Eidinger (de “Dying”). No drama filmado por Tykwer, uma família vive num apartamento sobrecarregado com as suas desarmonias. Embora as complexidades do dia a dia distanciem os integrantes, eles ainda preservam algum amor. Quando passam a conviver com a síria Farrah (vivida por Tala Al-Deen), contratada como governanta, o clã, que é chefiado por Milena (Nicolette Krebitz) e Tim (Eidinger), terá novas lições de empatia. A sequência de uma corrida de bicicletas, com direito a uma fuga da polícia, é um momento antológico da longa-metragem, que transborda destreza na condução de planos.

A Berlinale termina no dia 23.

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