Com a Europa de olhos postos na Ucrânia, no Cairo relembra-se a Palestina

(Fotos: Divulgação)

Numa conversa com os jornalistas no Cairo, o presidente do Festival do Cairo, Hussein Fahmy, sublinhou a importância de falar da questão da Palestina num momento em que os festivais de cinema europeus “politizaram-se” e trouxeram para o centro da sua programação a Ucrânia. 

O filme da Palestina “Passing Dreams” abriu o Festival do Cairo

Nos últimos 3 anos tenho visitado grandes festivais europeus: Cannes, Berlim, Veneza. Todos eles estão politizados. Todos discutem o problema da Ucrânia e às vezes até temos o Zelinski no grande ecrã a dar um discurso e a falar da sua causa”, explicou Fahmy, acrescentando o papel do Festival Cairo para abordar um velho problema no mundo árabe. “Os festivais europeus já não são apenas de exposição artística como estávamos habituados. Veja, temos o próprio ministro da cultura alemão a subir ao palco de um festival e fazer um discurso exuberante sobre a Ucrânia. Eu não fiz nenhum discurso exuberante sobre a questão da Palestina, mas tenho o direito de expressar na nossa programação o que a Palestina sente. Esta é a nossa questão. Esta é a nossa causa.” 

Admitindo que esta não é a única questão importante de abordar nos certames do mundo árabe, Fahmy reconhece que no Egito existe uma “censura relaxada” ao cinema, dando como exemplo os quase 200 filmes que vão ser exibidos no Cairo. “Eles passaram todos na censura, mas há filmes que nós próprios não lhes colocámos à frente pois sabíamos que teriam problemas”. Certamente nessa lista de “censuráveis” estariam alguns trabalhos do francês Gaspar Noé (Irreversível; Clímax), que curiosamente foi convidado pelo festival para dar uma masterclass ao público egípcio. “Ele sabe dessa censura e está cá, com todo o gosto”, diz Fahmy, manifestando a sua posição contra qualquer tipo de censura governamental. “Essa censura deve ser feita por nós, que filmamos”, conclui.

Gaspar Noé deu uma Masterclass no Cairo

Manifestando a diferença que ainda separa o Festival do Cairo de outros certames da região que atraem cada vez mais filmes e talentos, como os festivais de Marraquexe (Marrocos), El Gouna (Egito) e Red Sea (Arábia Saudita), Fahmy evitou usar o termo “competição” em relação a eles, descrevendo-os antes como “bebés agitados” à procura de atenção. Em comparação ao Cairo, que já vai em 45 edições, esses certames são demasiado jovens e não têm, por exemplo, dedicado espaço de atenção à exibição de filmes clássicos, como o Cairo o tem feito nos últimos anos. Exibindo várias obras que foram restauradas por iniciativa privada, Fahmy fala em “preservar o passado”, mas não apenas os filmes: “A indústria do cinema egípcio começou em 1920, em paralelo ao movimento de Hollywood e da Europa. Todos os equipamentos que temos desses tempos eram semelhantes aos que foram, por exemplo, no “Gone With The Wind”. Temos hoje em dia novas tecnologias, mas temos uma quantidade imensa de equipamentos, laboratórios e infraestruturas que queremos transformar num museu gigantesco. Estou a colecionar todo esse material do passado.” 

Salientando a importância da indústria (Cairo Industry Days) no atual Festival do Cairo, de forma a ligar os cineastas egípcios ao mundo, Fahmy lamenta ainda assim a fuga de técnicos de cinema egípcios para as plataformas de streaming orientadas para a televisão, mas define que o maior problema é mesmo o poder de atração da indústria emergente do Golfo Pérsico, grande responsável pela fuga de talentos do Egito. “É preciso encontrar novos talentos”, diz-nos, observando, mais uma vez, a importância da Cairo Industry Days para essa tarefa.

O Festival do Cairo decorre até 22 de novembro.

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