Símbolo vivo do western spaghetti associado ao filão graças ao sucesso mundial de “Django” (1966), Francesco Clemente Giuseppe Sparanero, aka Franco Nero, é esperado no Festival de San Sebastián esta segunda-feira, quando o evento basco revisita um marco do thriller europeu: “Il Giorno Della Civetta” (1968), de Damiano Damiani (1922-2013). Essa trama que faz dele um vigilante no combate à máfia siciliana integra a retrospetiva Itália Violenta, mostra dedicada às oito décadas do poliziesco (ou Poliziotteschi), o suspense criminal de DNA italiano, que abarca de “Obsessão” (1943) a “Gomorra” (2008).
Embora seja mais lembrado no papel do cowboy que arrastava um caixão pelo Velho Oeste, Nero teve o seu rosto associado a muitos êxitos ligados ao crime nas ruas de Roma, Nápoles, Sicília e a sua Parma natal. “Além de Damiani, muitos dos grandes realizadores da Europa ofereceram-me papéis. Filmei com Elio Petri, Claude Chabrol e Rainer Werner Fassbinder em paralelo ao meu trabalho em policiais e westerns. Gosto da diversidade. Aprendi a realizar para me expressar de formas diversas, o que procurava desde jovem. Não é o dinheiro que me move. Nunca foi. Enquanto estiver a divertir-me, sigo a filmar”, disse Nero ao C7nema.
Há onze meses, ele esteve no Brasil, no Festival do Rio, representando o elenco de “Giorni Felice”, de Simone Petraglia. Badalava, naquele momento, a sua autobiografia, “Django and the Others: Many Stories, One Life”, recém-traduzida em inglês pela editora Bellucci, Palms & Carmichael Publishing. Nas suas memórias, ele revista a longa-metragem de Damiani que os curadores Quim Casas e Felipe Cabrerizo incluíram na seção de San Sebastián debruçada sobre os detetives e justiceiros que encaram mafiosos.
“Quando lancei o meu livro, dei-lhe o título de ‘Django e Gli Altri’ (em português, ‘Django e Os Outros’) porque, apesar dessa personagem me ter dado fama, interpretei dezenas de outroas. Foram cerca de 240 filmes dos anos 1960 até hoje. Sergio Corbucci, que filmou ‘Django’, era um homem muito bem-humorado. Ele dizia: ‘John Ford tem John Wayne; Sergio Leone tem Clint Eastwood; eu tenho Franco Nero’. Aquele filme foi rodado sem dinheiro nenhum. Filmámos o início uma semana antes do Natal de 1965, quando o argumento ainda não estava em pleno. É um milagre ter corrido bem como correu. Fui chamado para filmar ‘Camelot’ na época em que Corbucci desejava fazer um outro western, ‘The Great Silence’, que não pude rodar. Ele fez esse western com Jean-Louis Trintignant e Klaus Kinski, mas ficou zangado comigo”.

Nero chega à Espanha ciente que as sessões de exibiçãoiItália Violenta são muito procuradas, sobretudo as de “Roma A Mano Armata” (1976), de Umberto Lenzi, e “Milano Calibro 9” (1972), de Fernando Di Leo. Ambos integram um cardápio de tónica política, filmados na terra de Federico Fellini. Uma terra de gigantes (Rossellini, De Sica, Fellini, Visconti, Antonioni, Pietro Germi, Pasolini, Elio Petri, Lina Wertmüller, Valerio Zurlini), próspera na seara do terror (com o giallo de Dario Argento), no western (Sergio Leone e Tonino Valerii), nos épicos de espada e sandália (o Peplum) e nas chanchadas com Carlo Pedersoli e Mario Girotti (conhecidos como Bud Spencer e Terence Hill).
“Por conta da variedade italiana, pude circular pelos mais variados géneros. Fiz filmes em Inglaterra, Alemanha, Itália, Croácia e até no Brasil, onde fui dirigido por Lúcia Murat (em ‘A Memória Que Me Contam’). No outro dia fui chamado para uma participação no novo projeto de Julian Schnabel (“In The Hand of Dante”). Era pequeno o papel, mas ele fez uma promessa de que quando fizer a cinebiografia de Luis Buñuel, vai-me escolher para o papel principal” diz Nero. “Apoiado nesse tipo de promessas, sempre a abrir possibilidades, vou seguindo”.

