“Megalópolis” atiça o apetite do público de San Sebastián

(Fotos: Divulgação)

Ao contrário do que se passa em Cannes, onde as sessões são restritas a acreditados e a alguns poucos convidados, San Sebastián coloca ingressos à venda, para a população e turistas, o que amplia a corrida popular por certos filmes, a se destacar os títulos da mostra Perlak, repleta de potenciais nomeados aos Óscares e cheia de produções que viraram faróis em Berlim, em Veneza e na Croistte. É de lá que veio o esperado (e polémico) “Megalópolis“, de Francis Ford Coppola, encarado como o filme de maior procura pelas plateias de Espanha. A sua projeção na maratona basca só acontece na terça-feira, mas a corrida aos bilhetes já começou há muito.

A atriz Rhonda Fleming entrega a Concha de Oro a Francis Ford Coppola em 1969. no palco do Teatro Victoria Eugenia, em San Sebastián

A recente ameaça de “cancelamento” sofrida pelo seu realizador, Francis Ford Coppola, sob a alegação de conduta indevida com figurantes nos sets, ampliou o interesse. Entre todos os indicados aos prémios de Cannes deste ano, o concorrente que mais chamava atenção e mais mobilizava apostas foi o épico idealizada há quase quatro décadas, cujo realizador, hoje com 85 anos, tem duas Palmas de Ouro no seu currículo. A sua passagem pela Côte d’Azur teve um sabor de controvérsia. É um exercício autoral de risco absoluto, mas que beira a extravagância, resvalando no excesso e até na caricatura, mas a sua dimensão poética é inegável. A música de Osvaldo Golijov é um dos raros pontos em que a fita não gera dissonância de opiniões, assim como a atuação de Giancarlo Esposito no papel do presidente da câmara de uma Nova Iorque apresentada como Nova Roma.

Depois do fenómeno “Oppenheimer”, que faturou 972 milhões de dólares e conquistou sete Óscares, a indústria do audiovisual anseia por uma longa-metragem voltada para plateias adultas, com temática humanista, que possa faturar muito e alcançar prestígio. No início de maio, quando as primeiras imagens do filme de Coppola foram divulgadas, a sua superprodução passou a ser encarada como esse potencial sucesso pelo qual Hollywood tanto anseia. Após Cannes, contudo, as certezas não são unânimes. Há quem defina “Megalópolis” como um tropeço e há quem veja nele um poema com absoluta liberdade narrativa, mas ninguém fala em obra-prima. Pode ser que San Sebastián mude esse registo, uma vez que Coppola é visto como um deus no festival, onde ganhou a Concha de Ouro em 1969, por “The Rain People“. Saiu de lá premiado também em 1984, com “Rumble Fish“, que lhe valeu a láurea da Fipresci, a Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica.

Francis Ford Coppola recebe o Prémio Donostia em 2002

Nos EUA, os estúdios da Meca do cinema não se mobilizaram para dar apoio ao artista que rodou “The Godfather” (1972). Deram um chega para lá no seu projeto quase faraónico, orçado em cerca de 120 milhões de dólares, que foi pago por Coppola do seu próprio bolso, com o dinheiro da suas vinhas hipotecadas. Inicialmente, Paul Newman (1925-2008) seria o protagonista. Depois, falou-se em Kevin Spacey. Acabou por ser Adam Driver. No teaser divulgado pela American Zoetrope, a produtora de Coppola, a personagem de Driver caminha sobre o topo de uma construção nababesca e observa os céus da cidade até que, prestes a cair, consegue parar o tempo com uma palavra de ordem, estalando os dedos para que tudo volte a funcionar. A tal personagem é Cesar Catilina, arquiteto Prémio Nobel, definido como cientista com poderes especiais cujo sonho é construir um mundo utópico. Toda a trama faz referência explícita ao Império Romano, desde os nomes das personagens até diálogos em latim na narração feita por Laurence Fishburne. Cesar é uma figura controvertida, com um histórico afetivo traiçoeiro, que inventou uma substância, o Megalon, para salvar a sua mulher da morte. É com esse elemento que ele almeja criar uma NY perfeita, apesar do alcaide do local, Cícero (Esposito), discordar da sua visão. A guerra deles é narrada com muitas experiências e até com imagens documentais. Num dado momento da projeção de Cannes, uma pessoa subiu no palco e se dirigiu à tela. É um exercício do chamado “cinema ao vivo”. A pessoa simulava ser um entrevistador que se dirigia a Cesar, na tela, numa conversa tridimensional, como se fosse em tempo real. Shia fez isso na sessão oficial da Palma cannoise. Há uma forte curiosidade para saber quem vai fazer isso em San Sebastián.

Idealizada por Coppola em 1977, esboçada como projeto em 1983 e retomada em 2019, a trama de “Megalópolis” conta com um elenco de peso, que reúne Dustin Hoffman, Jon Voight, Aubrey Plaza, Nathalie Emmanuel, Shia LaBeouf e Talia Shire (irmã do cineasta). As filmagens aconteceram em 2022 e 2023, nos estúdios Trilith, em Atlanta, na Geórgia. No EUA, o seu lançamento comercial está previsto para o dia 27 de setembro. Em Portugal, a estreia é a 17 de Outubro.

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