San Sebastián celebra o legado “caliente” de Bigas Luna

(Fotos: Divulgação)

Ao oferecer o prémio Donostia a Javier Bardem, no arranque da sua 72ª edição, esta sexta-feira, o Festival de San Sebastíán celebrou de maneira direta (com imagens de citações) a obra do realizador que fez desse astro premiado o seu estro: Bigas Luna (1946-2013). Designer e pintor, vindo da pátria que gerou transgressores como Carlos Saura (1932-2013), Pedro Almodóvar e Isabel Coixet, ele marcou a produção audiovisual europeia com narrativas de forte apelo erótico, nas quais comida, corpos e volúpias desafiavam a moral de um país marcado pelo franquismo.

Bardem mencionou o nome dele com emoção no palco do palácio Kursaal, ciente de que poucos artistas retrataram a masculinidade de maneira tão plural quanto ele, alquebrando o sexismo e recontextualizando a virilidade. O seu olhar impressionou a crítica já em nas primeiras longas-metragens, entre eles “Tatuaje, primera aventura de Pepe Carvalho” (1978), que será exibido pela maratona basca, na sua seção de clássicos restaurados, no próximo dia 28 (data de encerramento). Nessa data, a cidade recebe o professor Santiago Fouz Hernández, da Universidade de Durham, um dos responsáveis por uma retrospectiva itinerante de Luna, ao lado da filha dele, Betty Bigas, e da pesquisadora Carolina Sanabria (da Universidade da Costa Rica).

Uma certa vez, numa projeção no Festival de Veneza, disseram ao Bigas que os seus filmes poderiam ser comidos, pela maneira sensual como apresentam os alimentos. Foi o maior elogio que ele recebeu em vida. Bigas defendia que o legado do seu cinema era provocar nas pessoas vontade de viver, uma vez que celebrava o sexo e a liberdade. Queria filmes que pudessem se comunicar”, diz Fouz-Hernández ao C7nema, numa conversa no Estação NET Rio, para onde levou a sua mostra, exibindo filmes de culto como “Jamón, Jamón”, pelo qual Luna ganhou o Leão de Prata de Melhor Realização no Lido, em 1992.

Campeão de bilheteiras à época da sua estreia, “Jamón, Jamón” ajudou a revelar duas das maiores estrelas espanholas de todos os tempos: Penélope Cruz e Javier Bardem, que viriam a formar um casal, no fim dos anos 2000. Bardem ficou conhecido como o “divo” de Bigas depois de estrelar (sob a sua direção) o controverso “Huevos de Oro”, que ganhou o Grande Prémio do Júri de San Sebastián em 1993. Graças a esse filme, Bardem ficou conhecido como um símbolo da desconstrução do “macho latino”.

Estivemos aqui com ‘Huevos de Oro’ e lembro-me do cartaz espalhado pela cidade”, explicou Bardem na cerimónia de abertura de San Sebastián.

Penélope Cruz e Javier Bardem em “Jamón, Jamón”

Autor de livros teóricos obrigatórios como “Live Flesh – The Male Body In Contemporary Spanish Cinema” e “Cuerpos de cine”, Fouz-Hernández se prepara para lançar “The Films Of Bigas Luna”, que sai em 2025 pela Manchester University Press. É uma reunião de estudos sobre a relevância de BL para a representação de dilemas ibéricos promovidos pelo diretor a partir do êxito de “Bilbao”, lançado por ele em Cannes, em 1978.
“Uma película como ‘Tatuaje’, que será revisitada na Europa na semana que vem, carrega em si todo o processo de transição pelo qual o meu país passou, com a morte de Franco, conforme a censura do governo franquista era derrubada gradualmente. Bigas chegou trazendo alegorias e metáforas, celebrando a força das mulheres, festejando a liberdade de expressão”, diz Fouz-Hernández, lembrando que BL filmou em inglês, com Dennis Hopper (1936-2010), o pouco citado “Reborn”, de 1981).
Em 2016, San Sebastián projetou o último trabalho de Luna, concluído postumamente por seus colaboradores: “Bigas por Bigas”.

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