“Emmanuelle” e como “É raro vermos uma mulher que procura o desejo sem a imposição do amor”

(Fotos: Divulgação)

Previsto para iniciar a sua carreira comercial no seu país natal, a França, na próxima quarta-feira, dia 25, “Emmanuelle” teve a sua primeira exibição pública na abertura do 72º Festival de San Sebastián, em concurso pela Concha de Ouro, numa sessão inaugural em que deflagrou um debate sobre as buscas pelo prazer numa sociedade de radical vigilância. Audrey Diwan, vencedora do Leão de Ouro de Veneza, em 2021, por “L’Evenement”, assina a (elegante) realização e escreveu o seu guião, estruturado em dupla com a também cineasta Rebecca Zlotowski. Depois de atrair os holofotes com uma discussão sobre o controle estatal sobre o corpo feminino a partir da criminalização do aborto, Audrey volta a provocar, agora com uma releitura, para tempos marcados por lutas pela equidade de género, de um clássico do erotismo, marco do “soft porn“, definido por algumas vozes como piroso e por outras como necessário. É um clássico que celebra 50 anos em 2024.

Queria discutir como tratamos o prazer na nossa sociedade“, disse a realizadora na conferência de imprensa do filme, onde confessou não ter visto por inteiro o “Emmanuelle” original. “Só vi 20 minutos, pois percebi que não era parte do seu público, mas interessei-me pelo livro (em se baseia) e interessei-me pelo desafio de trabalhar a linguagem cinematográfica do erotismo, que passa pela ideia de esconder, de sugerir. Se fosse uma questão de escancarar, a pornografia na internet já faz isso. Existem muitas definições de erotismo e tentei criar uma atmosfera em que as pessoas se olhassem“.

Em 1974, o fotógrafo e escultor francês Just Jaeckin (1940-2022) estreou-se como cineasta com uma adaptação do romance best-seller homónimo publicado em 1967 pela franco-tailandesa Marayat Rollet-Andriane (1932 – 2005), conhecida como Emmanuelle Arsan. O seu romance (a matéria-prima da releitura de Diwan) vendeu milhares de cópias e a adaptação audiovisual dele repetiu esse feito nas bilheteiras, no mundo todo, a um ponto de ter somado 8,9 milhões de espectadores vendidos nas salas francesas. A sua arrecadação mundial beira os 20 milhões (uma fortuna para a época), abrindo uma franquia alimentada por seis outros longas-metragens e sete telefilmes. Esse fenómeno transformou a sua atriz principal, a holandesa Sylvia Kristel (1952-2012), numa estrela e num sinónimo de libido em tempos em que não se falava de sororidade.

Queria mostrar uma mulher que se olha no espelho e diz ‘amo-te’ a si mesma“, disse Diwan em resposta ao C7nema, citando Todd Haynes entre os realizadores que retraram a força feminina.

Noémie Merlant (de “Portrait of a Lady on Fire”) é a estrela do “Emmanuelle” de Diwan. Na trama, que discute o empoderamento, a personagem é uma inspetora de qualidade a serviço de uma cadeia mundial de hotéis, que viaja a Hong Kong para inspecionar um complexo hoteleiro de luxo. O primeiro take dela na película é uma metonímia sugestiva: uma imagem das suas pernas. “É raro vermos uma mulher que busca o desejo sem a imposição do amor“, disse Noémie a Donostia.

No enredo de Diwan, a sua Emmanuelle trava numerosos encontros afetivos na Ásia, mas embarca numa espécie de investigação (do mundo a seu redor e de si mesma) ao conhecer o engenheiro Kei (Will Sharpe), um especialista na construção de represas que a ilude constantemente – um pouco com acontecia na adaptação de Jaeckin. “Queria um filme que não oferecesse à plateia todas as respostas“, disse Diwan.

San Sebastián segue até o dia 28 de setembro.

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