Saulė Bliuvaitė e como “deu tudo” de si para criar “Akiplėša” (Toxic)

(Fotos: Divulgação)

Uma das melhores surpresas do Festival de Locarno, com o seu quê do cinema de Rúnar Rúnarsson, Harmony Korine e Sean Baker, veio da Lituânia, “Akiplėša” (Toxic), uma primeira obra na luta pelo Leopardo de Ouro e sem dúvida um dos favoritos ao prémio final, não fosse Jessica Hausner a presidente do júri e o filme abordar temas caros à austríaca: a obsessão, alienação, diversas disfunções  e esperanças retorcidas num ambiente hostil e de pouca segurança para as suas personagens.

Contando a história de duas adolescentes, Marija (Vesta Matulytė), 13 anos, que é abandonada pela mãe e forçada a viver com a avó, e Kristina (Ieva Rupeikaitė), que quer se tornar uma modelo. Numa história de amadurecimento, magistralmente fotografada pelo diretor de fotografia Vytautas Katkus, quer na apresentação da paisagem desolada, quer na captura dos tormentos internos das personagens, acompanhamos o desenvolvimento da amizade improvável das jovens quando ambas se juntam a uma obscura escola de modelos com o objetivo de “escaparem” a um destino incerto numa cidade industrial do país. “A Lituânia está cheia de estas áreas industriais, uma herança soviética”, disse a cineasta Lituana em Locarno. “Tornamo-nos independentes, mas estas áreas permanecem. É uma parte da herança do nosso país que ainda não conseguimos deixar para trás. Ainda não conseguimos nos livrar do passado, nem acredito que o façamos no futuro”.

Com um título original que não é traduzível diretamente em inglês ( “significa uma pessoa absolutamente descarada que poderia literalmente arrancar os olhos”, segundo a cineasta), o filme acabou por fazer um sumário dos temas que aborda no seu título em inglês, “Toxic”, que já na nossa conversa com outro membro do júri internacional, Tim Blake Nelson, deixava a impressão que tinha impressionado.  

Reconhecendo que muitas das situações do filme aconteceram-lhe durante a adolescência ou a amigas, Saulė Bliuvaitė afirmou que “deu tudo” o que tinha para a concretização do projeto e que, sendo uma pessoa esperançosa, “queria apresentar a esperança de uma forma natural, não entregando à audiência uma solução moralmente correta para a situação”. “Muitas destas situações ora aconteceram-me a mim, ora aconteceram a amigos meus durante a adolescência. Ia muitas vezes aos castings que faziam em centros comerciais ou casas. Às vezes os scouts vinham até à escola à procura de modelos, pediam para nos levantarmos e convidaram algumas de nós para castings”, explicou a cineasta, que conta no currículo com diversas curtas-metragens, como “Limousine” e “The Contest”, e encontrou parte da inspiração para o seu filme no documentário de 2011, “Girl Model“, de David Redmon e Ashley Sabin – que retrata como meninas são recrutadas na Rússia, com recrutadores da Europa Ocidental a viajar para lugares esquecidos por Deus a prometer este mundo e o outro.

O mundo de poucas opções para estas jovens adolescentes, nesses lugares esquecidos, é acentuado em “Akiplėša” na personagem de Marija (Vesta Matulytė), que tem um problema motor (coxeia), o que a partida seria castrador de qualquer carreira no mundo da moda. Acentuando nela a complexidade que é a sua vida e visão sobre o futuro, Saulė explicou a sua criação: “A forma desta personagem se afastar das coisas e não arriscar, muitas vezes livra-te de muitos problemas. Mas o facto dela coxear aumentava a insegurança e ansiedade que tinha perante o mundo. A escola de moda aproveita-se disso e chega a dizer que vai resolver a questão. Toda a gente ataca muito a escola de modelos, mas se pensarmos bem ela dá a esta personagem algo que ela não tinha. A própria mãe diz-lhe que ela é coxa e que por isso nunca será uma modelo. A escola de moda, através da responsável, não olha para o coxear como um problema. Isso traz cores além do preto e branco à história (…) Às vezes há raparigas sem qualquer tipo de proteção parental ou social e têm de navegar pela adolescência e contar apenas com os amigos, Para mim, a adolescência foi apenas uma parte da minha vida e aprendi algo com isso.”

O Festival de Locarno encerra amanhã, 17 de agosto.

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