“A Europa não existe”, diz Aki Kaurimäki em Cannes

(Fotos: Divulgação)

Divertido e irónico nas suas respostas e reflexões políticas, Aki Kaurismäki fez os jornalistas soltarem gargalhadas numa conversa sobre Fallen Leaves no 76º Festival de Cannes, dirigindo-se a eles com um misto de rabugice e provocação. Na verdade, o finlandês só não deixou de lado a sua contínua provocação à falência moral europeia.

A Europa não existe“, disse o cineasta de 66 anos, ao pontuar as suas posições acerca da Guerra da Ucrânia, que é mencionada múltiplas vezes na sua nova longa-metragem, num programa de rádio. “Não existiam condições para eu fazer um filme no meio deste conflito sem me posicionar, ainda que fosse através de transmissões de rádio”.

Na conversa, o realizador, que mora em Portugal, arriscou um “podemos falar em português”, em resposta ao C7nema, e disse que o cão que aparece com destaque na longa-metragem veio de Braga. Ele é o dono dele.
“Escrevi esse guião em 30 horas. Saiu tudo do inconsciente“, explicou.

Em vários momentos de Fallen Leaves, há um aparelho de rádio com notícias contra a Rússia ligado na casa da protagonista, Ansa (Alma Pöysti). Solitária, ela começa o filme sendo funcionária de um supermercado. Depois, vira empregada de limpeza num bar. Por fim, de demissão em demissão, transforma-se em operária de uma fábrica.

O método de Kaurismäki é ‘old school’ e é curioso: não se pode olhar para a câmera, não existem ensaios e tudo se resolve num take“, disse Alma Pöysti, a Cannes.

Na trama, a vida desta muiher é monótona, sozinha e bafienta. Até as lasanhas congeladas que compra ganham mofo. Mas tudo muda quando ela se encanta por um homem sem nome que conhece num karaoke, vivido pelo brilhante Jussi Vatanen. E ele também se encanta por ela. É um operário que vive sozinho e carece de algo que chame de seu. O problema é que ele bebe. E muito. Na ciranda entre o álcool e uma paixão verdadeira, a personagem de Vatanen sofre uma reeducação afetiva.

Já não bebo há alguns anos“, disse o cineasta à Croisette, com uma expressão marota que fez a moderadora da entrevista fitá-lo com uma expressão muito incrédula seguido da pergunta: “Parou mesmo de beber?“.

Famoso pela boémia, Kaurismäki parecia alcoolizado quando recebeu o Urso de Prata de Melhor Realização, na Berlinale de 2017, por “The Other Side of Hope“. Aliás, ele importou o protagonista daquela longa-metragem, Khaled, vivido por Sherwan Haji, para uma participação em “Fallen Leaves“.

Essa aparição é, sim, uma homenagem à personagem e uma forma de chamar atenção à perda da memória no cinema. Esquecemos as pessoas, as personagens. Daí trazê-lo“, disse Kaurismäki, antes de explicar ao C7nema por que aparece o poster do drama romântico “Brief Encounter” (1945), de David Lean, na hilária cena na qual as personagens de “Fallen Leaves” vão ao cinema. “Este filme fala de um amor que não se encontra, passado numa estação de comboio onde as duas personagens centrais, mesmo apaixonadas, não podem ficar juntos. Queria que os protagonistas deste novo filme se assemelhassem a eles: deveria ser impossível eles se encontrarem. Mas existe o amor“.

O Festival de Cannes segue até o dia 27 de maio.

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