Goodbye Julia: as feridas do Sudão

(Fotos: Divulgação)

Com um conflito no território reacendido em abril passado, o Sudão tem em Cannes a sua primeira produção na forma de “Goodbye Julia”, um drama que inevitavelmente aborda as feridas da região e o passado recente para de alguma forma esclarecer os fatores sociais e as forças que levaram à secessão do Sudão do Sul. “Tenho emoções mistas ao estar aqui em Cannes. Por um lado, estou muito feliz do meu filme chegar ao festival, mas por outro e, com a guerra, ninguém consegue celebrar este feito. Espero que os combates iniciados em abril terminem depressa”, disse Mohamed Kordofani ao C7nema em Cannes. “Até 2019 fui engenheiro aeronáutico, ou seja, troquei uma profissão segura pela insegurança de ser produtor e realizador. Mas era o que desejava para mim.”.

Nascido no norte do antigo Sudão, Kordofani confirma que o seu filme estreia “é muito pessoal” e que todas as personagens têm nelas as experiências e até diálogos que o realizador teve desde 2003.

Em “Goodbye Julia” seguimos a história de Mona – uma cantora reformada do norte do Sudão que vive um casamento tenso e que se sente culpada após encobrir um assassinato. Numa tentativa de fazer as pazes, ela recebe a viúva e o filho do falecido na sua casa. Incapaz de confessar as suas transgressões à mulher, Mona decide deixar o passado para trás e se ajustar a um novo status quo, sem saber que a turbulência do país pode invadir a sua casa e colocá-la frente a frente com seus pecados.

Mohamed Kordofani

Há muita gente que não vai gostar do meu filme, pela forma como certas personagens são retratadas. Acho que era fundamental abrir esta ferida.  O filme critica uma tendência que existe de limitar o que podemos falar da sociedade.”, explicou Kordofani, acrescentando que as dificuldades de filmar no território foram extremas: “O projeto começou a ser desenvolvido em 2019 e terminou na segunda-feira passada. O Sudão não é famoso pelo cinema. Não tem infraestruturas. Não temos talentos para equipa técnica, não existe equipamento, nem autorizações para filmar. Além disso, filmamos num período terrível, um ano depois do golpe de estado. As pessoas ainda protestavam e as forças de segurança estavam na rua para as travar, impedindo ajuntamentos. Imagine o quão mau isto é para uma produção. Até gás lacrimogénio chegamos a ter no set de filmagens, impedindo que a rodagem decorresse normalmente.”.

Falando sobre os planos de exibição no território onde foi filmado, Kordofani reconhece que certamente vai encontrar muitas dificuldades, mas mostra otimismo: “Sempre soube que seria um desafio exibir o filme no território, mas não queria pensar nisso antes dele estar terminado. Além da guerra, temos uma ausência natural de salas de cinema, falta de equipamento. Se a guerra parar, não tenho problemas em fazer uma exibição com recursos escassos, levando eu o projetor e o sistema de som. E mostramos numa parede se for preciso”.

O Festival de Cannes prossegue até dia 27 de maio.

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