Presente na Semana da Crítica do Festival de Cannes, “Inshallah a Boy” tem dado que falar pela forma simples e direta como ataca as injustiças cometidas na Jordânia contra as mulheres, como o caso da protagonista do filme, Nawal (Mouna Hawa), que após a morte repentina do marido descobre que, de acordo com a lei das heranças do país, e porque deu à luz uma menina, a família do esposo pode ter direito a tudo o que possui, incluindo a casa, que se torna o centro de uma ação judicial lançada pelo irmão do esposo.
Assinado por Amjad Al Rasheed, realizador em estreia nas longas-metragens, “Inshallah Boy” tem como grande mais valia .- afastando-se assim dos habituais clichés dos filmes da região – um conjunto de personagens ambíguas e não restritas à binaridade do bom e mau. “Uma das primeiras decisões que tomei foi colocar todas as personagens em “zonas cinzentas”, ou seja, ambíguas.”, explicou-nos Al Rasheed em Cannes. “No storytelling moderno não podemos reduzir as personagens a uma só coisa. Somos todos seres humanos e temos de ver sempre as circunstâncias que levam uns a serem ‘bons’ e outros ‘maus’. A maldade e a bondade dependem da educação. O que quis neste filme foi fazer uma questão moral. Era muito importante para mim colocar as pessoas a pensarem.”

Para Al Rasheed, falta ainda muito trabalho para que exista uma verdadeira mudança e o fim das injustiças. “As mulheres fazem parte da nossa sociedade e são 50% dela. Como é que metade da nossa sociedade sofre de iniquidade e tem regras próprias que são como correntes? Elas nem sobre o seu corpo têm poder. É absurdo para mim que sejamos guiados por regras impostas há milhares de anos. E não falo apenas de uma religião em particular, falo de todas que são dominadas por homens” O meu filme fala de um caso específico na Jordânia e em outros países islâmicos, mas se olharmos para a Europa e EUA, as mulheres continuam a ganhar menos que os homens na mesma posição.”
Dizendo que é uma grande alegria, mas também uma grande responsabilidade representar o seu país no Festival de Cannes, Al Rasheed não sabe o que esperar na recepção ao filme no seu país. Porém, uma coisa é certa: “Não tenho medo das críticas e não sou uma pessoa que se assusta facilmente. A nossa indústria do cinema, se é que lhe podemos chamar isso, é ainda muito jovem e não temos muitos filmes locais. Por isso mesmo, as audiências não estão habituadas a verem filmes locais, além de não quererem olhar para um espelho. E é uma audiência muito sensível, que automaticamente vê um filme e diz que ele não representa a nossa cultura. As pessoas não entendem que o cinema não tem de mostrar o nosso país apenas com uma imagem bela. Ainda temos de trabalhar nas ferramentas e crenças das pessoas e só lá vamos com educação”.
O Festival de Cannes prossegue até 27 de maio.

