Only The River Flows: noir chinês abana o Festival de Cannes

(Fotos: Divulgação)

Presente pela terceira vez consecutiva no Festival de Cannes, Wei Shunjun estreou este ano no certame, na secção Un Certain Regard, o seu mais recente projeto, “Only The River Flows”, uma adaptação noir de uma obra literária com o mesmo título, escrita pelo famoso romancista chinês Yu Hua.

Menção Especial do Júri em 2018 pela sua curta-metragem “On The Border”, Wei tem mudado de registo e género a cada filme que lança. Por isso mesmo, este “Only The River Flows” difere, em muito, de Striding Into The Wind(2020, selo Cannes) e “Ripples Of Life(2021, Quinzena dos Realizadores). “Gosto de experimentar e fazer coisas diferentes, mas é um desafio constante muito apaixonante”, disse o jovem cineasta chinês ao C7nema, numa entrevista durante o Festival de Cannes.

Quando três assassinatos são cometidos na pequena cidade de Banpo, na China, Ma Zhe, o chefe de polícia, é encarregado de solucionar os crimes, partindo para uma investigação que se vai revelar negra, espinhosa e estilizada, que muitos comparam às dos filmes de Melville e até a “Memories of a Murder” de Bong Joon-ho. “Escrevi o guião a partir da obra do Yu Hua, mas acrescentei muita coisa, como personagens, como o inspector principal, e até o departamento de investigação. (…) Para ser sincero, nunca agarrei no pequeno livro e disse que ia fazer um filme noir. As coisas surgiram naturalmente e só no final fui confrontado com essa ideia de estarmos perante um noir. (…) O grande desafio por aqui foi balançar a realidade do que vinha no livro com a ficção que criei em seu torno, na qual é preciso montar os sentimentos”. 

Além de um filme de investigação procedimental, “Only The River Flows” traça igualmente um retrato da sociedade chinesa antes do recente boom económico e após os protestos de Tiananmen, uns anos 90 (1995, mais propriamente) onde as salas de cinema encerravam devido à falta de público, situação que se alterou com a chegada dos anos 2000 e a explosão de novas audiências e uma indústria de produção, distribuição e exibição.

E apesar do cinema da China continental, especialmente os filmes policiais e o noir, não serem tão conhecidos internacionalmente como as da Coreia do Sul, Japão, Hong Kong e até Taiwan, Wei Shunjun acredita que as coisas estão a mudar, encontrando nessa competição “algo saudável“. 

O Festival de Cannes termina a 27 de maio. 

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